7 de set. de 2010

COBERTURA DA CRISE Imprensa inverte causa e efeito Por Pedro Eduardo Portilho de Nader em 14/10/2008

Artigo publicado durante o estouro da bolha americana que ilustra como a imprensa trata com superficialidade e negligência assunto tão relevante.

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=507JDB006

COBERTURA DA CRISE
Imprensa inverte causa e efeito

Por Pedro Eduardo Portilho de Nader em 14/10/2008


"Vejam só, o conselho administrativo da Cretinice Sociedade Anônima e o diretor das Indústrias Reunidas Banalidades." (Karl Kraus)

"Em casos duvidosos, decida-se pelo correto." (Karl Kraus)

A crise econômica internacional tem sido tratada na imprensa enfatizando-se o presente tanto quanto as incertezas sobre o futuro. É facilmente compreensível que assim seja – e assim, cabe aqui fazer duas observações iniciais. Primeiro: na ênfase dada pela imprensa, está implícita a noção já difundida de que a crise econômica atual começou com a bolha no mercado imobiliário norte-americano. Segundo: a consideração referente às causas que levaram à crise ajuda a compreender o presente e o futuro e essa compreensão das causas não foi estabelecida adequadamente. Nesse aspecto, a imprensa não ajudou nem ajuda a esclarecer devidamente as causas da crise atual. É preciso retomar a questão das causas da crise atual.

A crise econômica internacional não se iniciou com o estouro da bolha imobiliária norte-americana – nem antes, com a formação dessa bolha. A bolha imobiliária norte-americana não é a causa da crise posterior, mas é um efeito – e um efeito apenas secundário, um efeito superficial – da crise econômica que a antecede. Em tempo: é um "efeito superficial" no sentido estrito de um efeito que aparece na superfície. De fato, a economia norte-americana tem produzido, durante os últimos anos, inúmeras bolhas – em diversos segmentos econômicos. A formação e o estouro da bolha no segmento imobiliário apareceram primeiro, e mais visivelmente: mas isso é um efeito, não uma causa.

Produção não acompanhou a bonança

Simplesmente, é preciso re-inverter o erro da confusão entre causa e efeito habitualmente difundida na imprensa por jornalistas e especialistas econômicos: a bolha no segmento imobiliário não é a causa, mas é, sim, o efeito da crise econômica internacional.

A "crise atual", tal como percebida, não é causada pela crise financeira que seria decorrente do estouro da bolha imobiliária. Todo esse conjunto – formação da bolha imobiliária, estouro da bolha imobiliária, crise financeira – decorre da precariedade precedente da economia norte-americana. É preciso desfazer essa falsa causalidade: a "crise atual" percebida é resultado da crise efetiva que existiu nos anos que antecederam a "crise".

Apesar disso, viveu-se nos últimos anos ignorando a relação entre essa precariedade nos anos de bonança e a "crise atual": como se essa precariedade pudesse ser combatida com os bancos centrais dos países fazendo cortes nas taxas de juros e injetando-se mais liquidez de dinheiro no mercado. Essa forma de combate à precariedade resultava cada vez mais no reforço das condições da precariedade.

No caso norte-americano, é claro: a economia crescia por meio do aumento da liquidez através dos empréstimos provenientes da poupança internacional. No entanto, é preciso considerar que esse aumento de liquidez ia para o aumento do consumo, sem um aumento efetivo nos segmentos produtivos. Para impedir que os segmentos produtivos desacelerassem, cortavam-se juros e aumentava-se a liquidez, o que aumentava o consumo. Daí, surgiram várias bolhas, como a do segmento imobiliário e no segmento financeiro. Aumentava o perigo; para combater o aumento do perigo, faziam novo corte de juros e nova injeção de liquidez na economia, causando novo incremento no consumo – sem aumento, em contrapartida, na produção. Resultado: o endividamento crescente, diversas bolhas em vários segmentos econômicos, crescimento econômico à míngua. Os Estados Unidos tornaram-se o grande tomador da poupança internacional: assim, por um lado sustentaram o crescimento econômico global, enquanto por outro lado o déficit norte-americano crescia a níveis insustentáveis. Desta forma, a bonança econômica internacional nos últimos anos foi permitida pelo aumento do consumo interno norte-americano, sem que a economia produtiva norte-americana acompanhasse essa bonança.

Escolhas e decisões

As autoridades econômicas combateram o perigo iminente de desaceleração, e mesmo de recessão, aumentando ainda mais os problemas que condicionavam inicialmente o perigo.

O que fizeram as autoridades econômicas norte-americanas ao longo dos anos que precederam a formação da bolha imobiliária? Cortaram juros e injetaram dinheiro na economia norte-americana por meio de empréstimos contraídos da poupança internacional. Procuraram os melhores resultados imediatistas, mas isso foi feito sem incremento na economia produtiva interna e com o aumento descontrolado do consumo interno, resultando nas inúmeras bolhas em vários setores da economia. Assim, os melhores resultados imediatistas, procurados pelas autoridades econômicas, potencializaram a "crise atual".

Visando a evitar o desaquecimento e até a recessão da economia interna norte-americana, sucessivos conjuntos de medidas decididos pelas autoridades econômicas criaram esse quadro naqueles anos de bonança: os Estados Unidos tornaram-se o grande tomador da poupança internacional, enquanto cortes de juros e injeções de dinheiro no mercado interno norte-americano foram usados para manter o mercado interno aquecido por meio do consumo sem que a produção interna acompanhasse esse aquecimento; o aquecimento do mercado interno sem o crescimento sustentado da produção provocou o surgimento de bolhas (como a que surgiu no mercado imobiliário e a que ocorreu no âmbito financeiro). Assim, aqueles sucessivos conjuntos de medidas que pretendiam evitar os riscos de desaquecimento e de recessão causaram a "crise atual". Não se trata de leis inexoráveis da economia, nem de dinâmica do sistema econômico, mas do resultado de escolhas que foram feitas e de decisões que foram tomadas.

Expectativa em relação às medidas

Nesses últimos anos, a política financeira de cortar as taxas de spread e injetar dinheiro aumentando ainda mais a liquidez seriam o paliativo para evitar o desaquecimento e até a recessão da economia. Na verdade, não foi paliativo: só teria sido paliativo se fosse feito algo para evitar que a economia se mantivesse aquecida prioritariamente pelos altos níveis de consumo, fazendo com que o aquecimento da economia fosse dirigido pelo incremento sustentando da economia produtiva. Sem outras medidas que precisariam ser tomadas para resolver efetivamente o problema, as medidas paliativas não têm caráter paliativo: ao invés de suspenderem os efeitos nocivos do problema, elas agravaram o problema ao mesmo tempo em que postergaram os efeitos. Em vez de paliativo, o funcionamento dessa política financeira aumentou o tamanho da crise então futura. Assim, não é que as decisões e escolhas feitas pelas autoridades econômicas não tenham conseguido evitar a crise e tenham apenas retardado os efeitos de desaquecimento e de recessão: elas pioraram a situação drasticamente.

A dívida norte-americana está próxima de 10 trilhões de dólares, enquanto o PIB norte-americano está na ordem de 12 trilhões de dólares – o endividamento norte-americano é, por baixo, 80% de toda a produção de um ano do país (talvez seja mais correto dizer 90%). Evidentemente, o endividamento dos Estados Unidos não chegou a esse montante e a esse percentual em relação ao PIB nacional por causa da bolha no segmento imobiliário. É o contrário: a formação da bolha no segmento imobiliário é decorrente das medidas referentes aos crescentes déficits do país, que contraiu nesses anos empréstimos massivos da poupança internacional (dinheiro da poupança internacional proveniente sobretudo dos países asiáticos) para manter a economia interna aquecida – sem crescimento da produção compatível com esse aquecimento.

Quanto a esse aspecto, então, a questão é: se o problema não decorre da formação da bolha imobiliária nem da crise financeira resultante do estouro da bolha imobiliária, a política financeira é limitada demais para resolver o problema. Cortar taxas de spread e aumentar a liquidez injetando mais dinheiro (a nova versão disso é socorrer as instituições financeiras em situação de desespero) só pode ser, no máximo, paliativo. Como a imprensa ajudou a difundir como verdade a versão – errônea, para não dizer falsa – de que a "crise atual" decorre da bolha imobiliária, as pessoas, perplexas, estão apreensivas na expectativa de saber se as medidas recentemente anunciadas por essas mesmas autoridades econômicas que estiveram tomando decisões nos últimos anos poderão funcionar a contento. Foram essas mesmas autoridades econômicas que, nos anos de "bonança", provocaram e alimentaram essa "crise atual". Enquanto isso, aqueles que ganharam fortunas com o estado de coisas causado pela bonança nos primeiros anos do milênio até agora o fizeram se beneficiando enormemente da "crise atual" que se iniciou. Repetindo: a "crise atual" é efeito da crise efetiva que já existia durante a "bonança" dos anos precedentes.

Diversas bolhas

Medidas de política financeira que poderiam ter sido tomadas nos anos anteriores poderiam ter ajudado a evitar a crise que se avizinha: teriam que ser feitas coadunadas com outras medidas não estritamente financeiras. Preferiu-se tomar o caminho de cortar sucessivamente taxas de spread e aumentar sucessivamente a liquidez nos mercados. Ano passado, o ex-presidente do Fed durante mais de quinze anos (antecessor imediato do atual) lançou um livro que apontava a inevitabilidade de uma crise que se avizinhava. Esqueceu-se de dizer como ele participou de maneira importante das ações que a tornaram inevitável. Nos oito anos do governo Reagan e nos quatro anos do governo Bush pai, os déficits da balança comercial norte-americana cresceram imensamente; essa tendência de doze anos foi parcialmente revertida nos oito anos do governo Clinton; depois disso, os déficits e o endividamento aumentaram exponencialmente devido às escolhas e decisões tomadas pelo governo Bush filho.

Sobre a economia norte-americana, analistas e jornalistas especializados têm discutido se a crise financeira atual vai afetar a economia produtiva – e, em caso positivo, o quanto vai afetar. Assim, a idéia é que a crise financeira atual (que seria decorrente do estouro da bolha imobiliária) pode se tornar causa da crise na chamada "economia real" (isto é, a economia produtiva). A eventual crise na economia produtiva no futuro próximo seria efeito dessa crise financeira atual. Novamente, esse modo de analisar comete uma inversão nas relações de causa e efeito. É preciso re-inverter esse modo de considerar a questão: a economia produtiva norte-americana já está com problema grave nesses últimos anos, ao longo de todos esses anos de "bonança" econômica internacional – todos sabemos que o crescimento do produto interno bruto norte-americano tem sido fraco e que paira, há anos, a ameaça de desaquecimento e até de recessão da economia norte-americana. É o conjunto de problemas na economia produtiva (relacionados aos déficits crescentes na balança comercial, ao endividamento crescente na ordem de 80% do seu PIB e ao papel exercido pelos Estados Unidos como grande tomador de empréstimos da poupança internacional) que, causando a formação das diversas bolhas nos diferentes segmentos da economia norte-americana, provocou o gravíssimo problema financeiro atual.

Causa e conseqüência

O paradoxo é que o grave problema na economia norte-americana gerou problemas maiores ainda em outros países do que nos próprios Estados Unidos.

Retomando: negligenciar – como fazem analistas e jornalistas especializados – os problemas na economia norte-americana nos anos de "bonança" que antecederam a "crise atual" não ajuda as pessoas que se informam por meio da imprensa a entenderem adequadamente o que ocorre, a compreenderem o que é essa "crise atual". Considerar o estouro da bolha no segmento imobiliário como sendo a causa – quando é um efeito – da crise econômica, ou é o cúmulo da ingenuidade causada pela desinformação, ou é o supra-sumo da estultice incapaz de entender quais sejam as efetivas relações de causa e efeito.

A "crise atual" iniciou-se em meados do ano passado como resultado da crise nos anos de "bonança" que a antecederam; as autoridades econômicas negavam a existência da crise até semana retrasada.

Em tempo: não se trata de discutir a sucessão dos fatos ou o conhecimento dos dados: a discussão efetiva é referente à maneira adequada de se compreender o encadeamento das relações de causa e conseqüência.

Ameaça de propagação

Por um lado, alguns analistas e jornalistas econômicos disseram e repetiram na imprensa – pelo menos nos últimos dois anos – que a economia norte-americana perdeu nos últimos dez anos a importância que tinha: por isso, a eminente crise na economia norte-americana não teria conseqüências graves para a maior parte do mundo. O crescimento econômico chinês seria o principal contrabalanço à precariedade econômica norte-americana: a economia chinesa vinha crescendo mais de 10% a.a., enquanto a economia norte-americana vinha lutando fortemente para evitar a desaceleração e até a recessão. O PIB norte-americano representava, na década de 90, 33% do PIB mundial, enquanto agora representa apenas algo em torno de 25% (evidentemente, há uma variação nesse percentual dependendo se o dólar se desvaloriza ou, como tem ocorrido nas últimas semanas em decorrência da "crise", se valoriza). Agências econômicas não só previram tanto a decadência inevitável da economia norte-americana quanto a ascensão, também considerada inevitável, da economia chinesa, o que alçaria – inevitavelmente – a China à condição de principal potência mundial nas próximas décadas. Sendo assim, o mundo não sofreria muito com a eventual crise norte-americana que se avizinhava.

Na década passada, quando ocorreu a chamada crise asiática, houve uma grande preocupação e receou-se que a crise se propagasse no mundo inteiro. Foi a economia norte-americana que impediu que a crise contagiasse o mundo, permitindo resolver aquela crise. Durante um tempo, a economia mundial se viu ameaçada pela crise asiática.

Da mesma maneira, quando, antes, houve a crise da Rússia, também a economia mundial se viu sob a ameaça de propagação: também nesse caso o peso da economia norte-americana foi decisivo para debelar a crise iniciada na Rússia.

A teoria das bifurcações

Analistas e jornalistas especializados olharam para o índice de crescimento das economias norte-americana e chinesa nos últimos anos, observaram ainda a significativa queda da participação do PIB norte-americano em relação ao PIB mundial ao longo dos últimos anos e concluíram, assim, que o mundo não seria muito afetado pela eventual crise norte-americana.

Então, se a economia mundial foi tanto bastante afetada pela crise na Rússia quanto seriamente atingida pela crise asiática na década passada, como não seria muito mais gravemente abalada por uma crise profunda na economia que ainda representa "apenas" 25% do PIB mundial?

Por outro lado, Wallerstein, conhecido economista e bastante respeitado em alguns círculos acadêmicos (talvez não seja errado dizer: mais conhecido e respeitado em círculos acadêmicos no Brasil do que fora do Brasil), há alguns anos disse que não existe a globalização apregoada no Consenso de Washington e afirmou que o capitalismo acabaria em poucos anos – dizia ele, então, que em menos de cinco anos o fim do capitalismo ocorreria inevitavelmente.

Perguntado sobre o que ocorreria após o fim do capitalismo, ele acionou a "teoria da bifurcação": tudo se desenvolve até atingir uma bifurcação, mas é impossível prever o que ocorre a partir da bifurcação. Wallerstein não precisava mostrar que conhece uma formulação mais ou menos recente, provinda dos estudos físicos, químicos e biológicos, para dizer que não sabe explicar o que ocorreria depois do pretenso fim do capitalismo: o discurso meramente teórico da bifurcação não tem serventia para explicar; precisamente ao contrário, ele serve para não explicar. É desnecessário observar que a teoria das bifurcações serve, justamente, para estudar o comportamento de possíveis variações mediante a variação dos parâmetros.

Análises mais abertas e gradualistas

Na verdade, o economista foi impreciso sobre o que ocorreria antes do suposto ocaso do capitalismo. É fácil entender que a decadência derradeira do capitalismo seja compreendida como um ponto de bifurcação, mas por que o ponto em que Wallerstein estava quando fez sua previsão sobre o suposto fim do capitalismo também não era um ponto de bifurcação (de modo que seria impossível, naquele ponto, prever o fim do capitalismo)? Afinal, tão pouco tempo – menos de cinco anos – antes do fim do capitalismo certamente já deveria ser um ponto de bifurcação.

Afinal, essas previsões extremamente ambiciosas – seja da inevitabilidade tanto da ascensão hegemônica da economia chinesa na metade do século 21, quanto da decadência definitiva da economia norte-americana (feitas, por exemplo, pelas agências econômicas), seja da crise derradeira do capitalismo em no máximo meia década (feita por Wallerstein) – possuem caracteres historicistas. Essas previsões historicistas têm como base precisamente o esquema de inversões nas relações de causa e efeito. A imprensa especializada adora esse esquema: é bem fácil de ser entendido e gera notícias e "análises" que causam impacto.

Apesar dessa facilidade, as pessoas que se informam acompanhando a imprensa ficam perplexas no que se refere à crise. O que mais dizer desse esquema, dessas "análises" e dessas previsões que se fazem? Naquele tipo de previsões (feitas pelas agências de investimentos, presente na formulação teórica de Wallerstein e difundidas pela imprensa especializada em geral), tira-se muito da responsabilidade dos agentes econômicos e tudo é atribuído à "dinâmica do sistema" (a ação dos agentes econômicos seria o efeito da suposta "dinâmica do sistema"): a crise é assim entendida em termos de um suposto fatalismo. O que precisamos é de análises que desfaçam e evitem essas inversões de causa e efeito: o resultado seria um modelo de análise bem mais aberto, mais gradualista, em que as previsões sobre o futuro seriam muito mais modestas – e muito menos imprudentes e impudentes.

Endividamento acima de 80%

Por exemplo: a decadência da economia norte-americana (e sua substituição pela economia chinesa como "hegemônica") ao longo da primeira metade do século 21 não é uma inevitabilidade: mas para que os Estados Unidos retomem um crescimento consistente da sua produção e invertam a tendência de endividamentos crescentes, será preciso que, no futuro próximo, suas autoridades econômicas – no Banco Central e na equipe econômica governamental – ajam de modo bastante diferente do que as suas autoridades econômicas têm feito já há muitos anos – e será preciso ter coragem para tomar medidas duras e talvez impopulares que afetarão a população de maneira considerável (medidas de âmbito financeiro como cortar spreads e injetar liquidez sem direcionar esse dinheiro produtivamente, e não apenas no consumo, senão não serão, como não foram, suficientes). Talvez seja correto considerar difícil que isso ocorra. Mas é impossível fazer uma previsão de caráter historicista sobre isso: depende, efetivamente, de decisões a serem tomadas e de escolhas a serem feitas, não de tendências essencialistas da suposta "dinâmica do sistema".

A realidade vivida está longe de se adequar ao modo como pensam (!) os formuladores dos esquemas de previsões historicistas. Compreender adequadamente a realidade vivida fica mais difícil diante do papel desempenhado pela imprensa – limitando-se, de maneira geral, a repetir e seguir o que dizem esses formuladores de esquemas interpretativos inconsistentes (posto que historicistas). Que entre para a história a balela de que a causa da crise foi o estouro da bolha no segmento imobiliário serve para isentar aqueles que foram os responsáveis pela crise – não somente porque não evitaram a crise, mas, principalmente, porque fomentaram as condições que efetivamente possibilitaram a criação da crise.

O endividamento acima de 80% do PIB é um problema muito grande. Mutatis mutandi, foi um estado de coisas assim que vivia a Argentina quando, na década passada, apresentou o calote aos investidores internacionais, desequilibrando seriamente a economia do país: a população vivenciou grandes problemas por causa disso. Imagine-se, então, o perigo de um endividamento dessa ordem por parte do país cuja economia ainda é 25% do PIB mundial.

Modelos pragmáticos

Outro exemplo de previsão modesta: as medidas inadequadas e insuficientes das autoridades econômicas e as suas inações nos anos precedentes de "bonança" provavelmente terão conseqüências gravíssimas para milhões (seria exagero dizer bilhões?) de pessoas na "crise atual" iniciada. Os que foram responsáveis por aquelas ações e inações nos anos precedentes não serão responsabilizados; os que se beneficiaram abusiva e inadequadamente nos anos de "bonança" sairão incólumes (Paul Krugman, há alguns anos, têm escrito sobre isso no New York Times). Mas essa previsão de razoabilidade, baseada apenas no que é razoável esperar das decisões e escolhas a serem feitas, é de um tipo bem diferente das previsões proféticas de cunho historicista que costumam ser feitas – a rigor, nem é adequado usar a mesma palavra para um tipo e outro.

Num caso, trata-se de previsões feitas de análises efetivas das relações de causa e efeito; noutro, as previsões têm características de profecias historicistas. Em Wallerstein, por exemplo, as previsões não são decorrentes de análises efetivas, mas mais da vontade de profetizar – no caso, a decadência derradeira do capitalismo. As previsões referentes à inevitabilidade de que a China ocupará, na metade do século, a posição hegemônica decorre mais da vontade de fazer profecias do que das análises das condições efetivas. Esses analistas – que fazem a profecia da inevitabilidade da decadência máxima da economia norte-americana e da ascensão da economia chinesa até a metade do século – fazem parte do conselho administrativo da Sociedade Anônima a que se refere Karl Kraus no primeiro dos aforismas antepostos aqui como epígrafe. Por sua vez, Wallerstein representa a associação industrial referida na seqüência da mesma epígrafe.

Eles preferem os esquemas interpretativos que têm a presunção de fazer previsões de cunho historicista, mas que são incapazes de considerar as mudanças nas condições que ocorram entre as previsões feitas e o prazo a que se referem as previsões – no caso dos que advogam as virtudes da econometria, eles costumam se referir ao procedimento básico do método econométrico como "modelagem", quando, na verdade, isso não tem nada a ver com a noção de modelo científico; o termo correto talvez fosse "moldagem". Ao invés desses esquemas, pode-se pensar modelos de análise que, não tendo a pretensão de fazer previsões historicistas, têm a vantagem de ponderar com razoabilidade sobre as possibilidades e as possíveis mudanças nas condições: trata-se, aí, de desfazer as inversões nas relações de causa e efeito feitas por aqueles esquemas interpretativos. No que se refere aos seus princípios, parâmetros e procedimentos, os modelos analíticos pragmáticos são o inverso dos moldes teóricos (como aqueles usados na econometria).

Formulações econométricas

A imprensa especializada prefere seguir o caminho mais fácil – para ela. Deixa de cumprir sua função de ajudar a entender as causas que provocaram a crise para que seja possível compreender o que efetivamente é a crise.

As considerações desfazendo as inversões de causa e efeito mostram que a crise é condicionada por escolhas e decisões, não se tratando de uma fatalidade. Num outro âmbito, é preciso decidir entre, de um lado, as formulações teóricas que confundem as relações de causalidade e, de outro, as análises pragmáticas que podem desfazer essas inversões entre causa e efeito.

Analistas e especialistas preferiram fazer as previsões historicistas (a inevitabilidade da ascensão chinesa à posição de potência hegemônica e a inevitabilidade da decadência norte-americana ou a inevitabilidade do fim do capitalismo em pouquíssimos anos), deixando de disparar os alertas sobre os perigos e os sofrimentos evitáveis da crise.

Agências de investimento e instituições internacionais costumam fazer previsões econômicas de médio prazo. Antes do prazo, elas "revêem" tranqüilamente suas previsões; a justificativa para essas revisões é que mudaram as condições. Elas não explicam porque não foram capazes de prever as mudanças das condições. Assim, elas fazem sucessivas revisões, de acordo com as sucessivas mudanças nas condições, entre a previsão inicial e o prazo final. O FMI, semana passada, reviu suas previsões sobre os crescimentos econômicos de países e sobre o crescimento da economia internacional em 2009: as condições teriam mudado por causa da "crise atual" iniciada. Eles se pretendem capazes de prever, dois anos antes, que a economia internacional cresceria precisos 3,9% (e não 3,8% nem 4%) em 2009, mas foram incapazes de antecipar a possibilidade da ocorrência da "crise atual" antes disso?

O FMI não pôde considerar que os problemas existentes há muitos anos nos Estados Unidos (déficits crescentes na balança comercial, mega-endividamento, economia sendo mantida aquecida através do consumo sem contrapartida na economia produtiva, excesso de liquidez gerando bolhas em diversos segmentos) gerariam uma crise como a que se iniciou? Não foi capaz de antecipar que, entre o ponto em que fez a previsão e o prazo referente de sua previsão (2009), poderia haver a crise?

Eu não costumo achar convenientes analogias ou linguagens figuradas, mas esse comportamento não é como de quem diz ver, de longe, uma mosca sem ser capaz de ver que a suposta mosca está no dorso de um elefante? Olhando com calma e direito e constatando sua incapacidade de ver o paquiderme, não deve sequer ser um inseto ali em cima.

Como, na realidade, a economia não costuma se restringir a algo como as CNTP, previsões econométricas feitas "desde que mantidas as condições" não são muito esclarecedoras, a não ser sobre o próprio caráter leve dessas previsões – as formulações econométricas não são aptas a considerar as mudanças de condições e, antes, não sabem avaliar corretamente as condições.

A volta de Geisel 06/09/10 | Sérgio Vale - Economista-Chefe da MB Associados

Achei interessante este artigo no que se refere ao ponto de vista da saúde da economia brasileira. Serve como reflexão para o que pode acontecer com o país em um futuro próximo se a política de gastos públicos não for alterada.
http://www.brasileconomico.com.br/noticias/a-volta-de-geisel_90477.html

Se o primeiro mandato do presidente Lula se pareceu com seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, seu segundo mandato tem se parecido perigosamente com o governo Geisel. Certamente não politicamente, mas economicamente.

Geisel, após o choque do petróleo no começo dos anos 70, insistiu em manter um forte patamar de crescimento.

A base do desenvolvimento seria a maior presença do Estado como garantidor do crescimento. Surgiram as obras faraônicas, como Itaipú e a Transamazônica.

Mas para crescer em meio a um mundo em reajuste, a equipe econômica teve que depender de capital externo para alavancar essa expansão.

Foi o começo dos déficits em transações correntes que iriam asfixiar a economia brasileira dali a alguns anos.

Aqui vale lembrar uma frase que já se tornou clichê, mas é mais do que correta. Quando perguntado sobre o que seria pior para um país, se a inflação ou uma crise de balanço de pagamentos, Mário Henrique Simonsen foi preciso: inflação esfola, mas crise de balanço de pagamentos mata.

Obviamente, as condições macroeconômicas do país naquele momento eram piores em geral. Havia uma inflação ainda elevada, que sistematicamente ficava acima de 10%, o câmbio era fortemente controlado e não havia equilíbrio fiscal, três situações distintas do que temos hoje.

Mas a ilação continua sendo interessante tendo como base a frase de Simonsen. De fato, não adianta ter a casa arrumada se um déficit em transações correntes aumenta consistentemente, como tem sido nosso caso.

Por mais que tenhamos exportações crescentes nos próximos anos, basicamente por conta da China, isso não será suficiente para contrabalançar a forte expansão esperada das importações. Cerca de 80% da nossa pauta de importação é de bens de capital e insumos.

Com o crescimento que teremos nos próximos anos, aliado a uma taxa de câmbio de curto prazo declinante, teremos expansão significativa das importações que levara a balança comercial para o terreno negativo já em 2012.

Não existem soluções mágicas para isso. Ela passa essencialmente pelo aumento da poupança e, no caso, tem que ser da poupança pública sobre a qual se tem mais controle.

Soluções exóticas que tendem a depreciar forçosamente a taxa de câmbio, como controle de capitais ou aumento de barreiras não-tarifárias, são soluções com resultados negativos no longo prazo, já comprovado na literatura econômica.

Assim, pode ser que a solução, infelizmente negativa, poderá ser uma crise de balanço de pagamentos.

A saga de Lula tem se parecido com aquelas histórias familiares de avô rico - pai classe média - neto pobre.

O rico avô Lula do primeiro mandato corre o risco de entregar seu cargo no segundo mandato de classe média para um neto pobre, que não terá muitas opções de política econômica para crescer. Isso num momento de intensos investimentos que terão que ser feitos.

Ainda não aprendemos que os gastos de hoje terão que ser pagos algum dia. Dolorosamente caminhamos para repetir os erros do passado, e o pior é que terá sido por opção de governo, novamente.

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Sérgio Vale é economista-chefe da MB Associados

4 de set. de 2010

Bolha imobiliária ameaça ou não ameaça mercado brasileiro? - DANIEL LIMA

Interessante artigo em que demonstra-se a falta de isenção da imprensa sobre o assunto (até porque a imprensa vive, atualmente, de vender propagandas disfarçadas de matérias)

Bolha imobiliária ameaça ou
não ameaça mercado brasileiro?

DANIEL LIMA 16/08/2010

http://www.capitalsocial.com.br/economia/bolha-imobiliaria-ameaca-ou-nao-ameaca-mercado-brasileiro/

Diante da falta de responsabilidade social das entidades que se autodenominam representantes do mercado imobiliário — e não se deve esperar que o comportamento de avestruz se altere, porque é a essência dos especuladores que as dirigem — noticiário pinçado aqui e ali dá conta de que não está fora de cogitação uma trombose na atividade.

Provavelmente não será nada semelhante ao que se traduziu em crise financeira internacional a partir do último trimestre de 2008, mas também estaria muito longe do desdém com que é tratado o assunto por especialistas e especuladores travestidos de torcida organizada.

Há perigo sim de bolha imobiliária no Brasil, garantem especialistas. Não há risco nenhum, asseguram outros. Quem está com a razão? Só o tempo dirá, evidentemente. Mas como prevenir é melhor que remediar, nada mais interessante que tomar certos cuidados. E não cair na conversa fiada de gente irresponsável do setor. Principalmente os falastrões que ocupam cargos de comando em entidades empresariais que cuidam mesmo é de interesses individuais. A classe empresarial e a sociedade que se virem.

Professor de finanças da Brazilian Business School e colaborador do jornal Valor Econômico, Ricardo Torres escreveu ainda recentemente preocupado com a demanda imobiliária. “Os preços subiram muito, para patamares que chamam a atenção e nos alertam sobre uma possível criação de uma bolha especulativa no setor”.

Trinta dias depois eis que o noticiário do mesmo Valor Econômico dá conta de que a expectativa de elevação da massa de renda da população acompanhando o ritmo dos preços dos imóveis no País afasta o mercado imobiliário das características clássicas de formação de bolha. A projeção foi feita pelo economista José Roberto Mendonça de Barros, da MB Associados, em estudo encomendado pela Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança).

Com quem prefere ficar o leitor: com o pé atrás de Ricardo Torres ou com um estudo feito por encomenda?

Veja os pontos de Ricardo Torres para dar sustentação à alta expressiva de preços dos imóveis no Brasil:

1. Abundância de recursos recebidos pelas cadernetas de poupança, resultado do período em que a Selic estava a 8,75% ao ano. As cadernetas de poupança têm obrigação de aplicar no mínimo 60% dos recursos disponíveis em operações de financiamento imobiliário, tendo gerado uma grande avalanche de recursos disponibilizados para esse tipo de operação.

2. Extensão nos preços para pagamento (de até 30 anos).

3. Redução e flexibilização dos pré-requisitos para aprovação de crédito.

4. Programa Minha Casa Minha Vida promovido pelo governo federal.

5. Medo proveniente da crise financeira internacional, motivando as pessoas a buscarem investimentos em ativos reais, em detrimento dos ativos financeiros.

6. Maior busca de imóveis por investidores estrangeiros em algumas cidades brasileiras.

7. Crença que comprar imóveis na planta, qualquer imóvel, gerará lucros rápidos. Ou ainda, terrenos em condomínios de luxo, gerando uma espiral de alta nos preços que indicam um princípio de pirâmide.

8. Elitização de alguns bairros, com preços subindo desproporcionalmente.

O especialista em finanças afirma que alguns itens justificam fundamentalmente uma alta nos preços, mas o movimento também estaria indicando excessos praticados ao não mais diferenciar valores específicos inerentes à avaliação de imóveis. “Os preços por metro quadrado variam muito pouco entre as diversas localizações e condições dos imóveis” — escreveu. E foi mais longe: “Essa explosão de demanda não é fundamentada no repentino crescimento populacional, que é inexistente. Tampouco é fundamentada em aumento acelerado na renda das pessoas. Não houve uma alta considerável no nível de emprego para justificar a demanda. E, ainda, não tivemos nos últimos 25 anos um evento baby-boomer que justifique um crescimento no número de pessoas que estariam em ocasião de se casar e comprar um imóvel. Ao contrário, os jovens brasileiros estão demorando cada vez mais para deixar a casa dos pais” — escreveu Ricardo Torres.

Para completar a convocatória que fiz ao especialista em finanças e atento observador do mercado imobiliário, mais alguns elementos à sensibilização dos exageradamente otimistas: “Houve um crescimento nos recursos financeiros já existentes no mercado, que migraram de operações tradicionais de investimentos, como bolsa de valores, fundos e títulos financeiros, para a especulação em imóveis, explicando esta alta demasiada para uma situação de alerta de anormalidade e de bolha especulativa nos preços. (…). Os preços não sobem indefinidamente sem base em fatos reais. As taxas de juros no Brasil estão subindo e ainda não vimos uma alta expressiva no nível de emprego nem na renda das pessoas. Esses fatores, aliados ao crescimento do crédito pessoal, empréstimos consignados, financiamento de veículos e com cartões de crédito indicam que o comprometimento da renda das pessoas é muito elevado”.

Exatamente um mês após a publicação do artigo de Ricardo Torres apareceu no Valor Econômico a posição de José Roberto Mendonça de Barros sob encomenda para a Associação Brasileira de Entidades de Crédito Imobiliário. Mendonça de Barros argumenta que, comparando o cenário doméstico com a bolha hipotecária vista em 2008 nos Estados Unidos, em que o preço das casas crescia num ritmo muito mais rápido que o da renda dos americanos, o Brasil está longe de uma crise dessa magnitude. “Não temos dúvidas de que não há bolha e de que provavelmente não teremos uma bolha no futuro” — disse o economista.

O estudo da consultoria diz que o crescimento médio anual da massa de renda real dos brasileiros foi de 8% no período de 2002 a 2008, e a expectativa é de expansão para os próximos anos, de forma que não haveria sinal de desaquecimento da demanda. “Até 2016, a nova Classe C terá uma demanda potencial por quase 1,5 milhão de imóveis”.

Também economista da MB Associados, Sérgio Vale afirmou que o dinamismo da economia brasileira nos próximos anos será diferente do predominante no Nordeste, onde a transferência de renda para as famílias se destaca. Ele acredita que o crescimento nos próximos anos será liderado pelo Sudeste, com investimentos advindos da Copa do Mundo, Olimpíada e Pré-Sal. “Desta forma, não há perspectiva também para desaceleração dos preços de imóveis, que, segundo Mendonça de Barros, são considerados adequados para o setor”.

Em linhas gerais, apontar o contraste de pontos de vista sobre o equilíbrio do mercado imobiliário é no mínimo obrigação de quem tem a missão de informar com ponderação. É claro que no rol de responsabilidade social que a análise do mercado imobiliário recomenda não constam entidades do setor, principalmente no Grande ABC onde a atuação classista se restringe à propagação de um lobby abjeto que não respeita inclusive os pequenos e médios empresários do próprio setor imobiliário.

São propagandistas que industrializam numeralhas sem contextos críticos que coloquem o mercado regional no devido lugar. Sempre com as bênçãos de boa parte da mídia, beneficiária temporária, sempre temporária, do jogo de cena que, como em outros casos, custam caro quando cai a máscara.

Famílias gastam R$ 1,07 trilhão impulsionadas pelo emprego formal

Com um povo inteligente desse jeito o país vai longe. É a cultura da dívida dominando a nossa população. Se você falar para alguém poupar dinheiro é capaz de ser taxado como maluco ou coisa do gênero.

Famílias gastam R$ 1,07 trilhão impulsionadas pelo emprego formal
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/09/04/economia,i=211489/FAMILIAS+GASTAM+R+1+07+TRILHAO+IMPULSIONADAS+PELO+EMPREGO+FORMAL.shtml

Victor Martins
Publicação: 04/09/2010 09:00
Com a renda aumentando vigorosamente e a estabilidade no emprego encorajando financiamentos de longo prazo, o consumidor tornou-se vital para o crescimento econômico. Apenas nos primeiros seis meses do ano, as famílias gastaram R$ 1,07 trilhão e a perspectiva é de, no mínimo, dobrar esse montante até dezembro. O Produto Interno Bruto (PIB, soma de todas as riquezas geradas no país) se beneficiou do forte impacto provocado por essa nova sociedade consumista. No segundo trimestre, a demanda dos lares brasileiros registrou crescimento pela 27ª vez consecutiva.

São milhões de famílias em uma busca desenfreada por geladeiras novas, televisores de LCD, internet de alta velocidade e casa própria — tudo patrocinado pela oferta maciça de crédito e pela expressiva expansão da renda. “Esses são os dois elementos fundamentais no processo de consumo e de crescimento elevados”, destacou o economista Alcides Leite, professor da Trevisan Escola de Negócios.

Na avaliação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), responsável pelo cálculo do PIB, crédito, emprego e renda têm impulsionado o consumo e, em consequência, o crescimento do país. No segundo trimestre comparado com igual período do ano passado, a massa salarial avançou 7,3%, ritmo que supera a inflação em quase duas vezes. O crédito para pessoa física também registrou incremento significativo no período, de 17,1%. Além dos ganhos salariais e da facilidade de financiamentos, o país está gerando empregos formais. Segundo o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, serão 2,5 milhões de postos com carteira assinada até o fim do ano.

Esperança
Giullia Amancio da Silva, 20 anos, é funcionária terceirizada no Governo do Distrito Federal. Com três filhos e o quarto prestes a nascer, conquistou o emprego há pouco mais de três meses, o primeiro com carteira assinada. O serviço paga apenas um salário mínimo, mas é dinheiro suficiente para inseri-la no mercado consumidor e ainda contribuir para a estatística trilionária das despesas das famílias, registrada nos dados do PIB.

“Eu sou uma brasileira que está melhorando de vida. Com um emprego fixo, dá para entrar nas prestações. Já comprei geladeira, fogão e vários móveis”, relatou. Depois de ganhar uma casa construída pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) na periferia de Brasília, ela financiou tijolos e cimento, chamou os vizinhos para ajudar e começou a ampliar o novo lar. “Fiz um muro para deixar minha casa mais segura”, explica. O emprego, somado ao crédito, tem alimentado as esperanças de Giullia, que voltou aos estudos e sonha em comprar móveis mais bonitos e em dar uma boa educação aos filhos.

A vontade de gastar é semelhante à de milhões de brasileiros que, há pouco tempo, não tinham acesso a produtos essenciais. Agora, podem comprar de quase tudo e estão aproveitando para adquirir também o supérfluo. “O consumo das famílias tem aumentado, mas não há um perigo iminente. O endividamento ainda é baixo e havia uma demanda reprimida nas classes C, D e E, que começou a ser atendida”, afirma Alcides Leite.

Na visão de Carlos Thadeu de Freitas Gomes, ex-diretor do Banco Central e economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), ainda há espaço para o consumidor comprar mais. “No momento, nós temos oferta de crédito elevada e a inadimplência está baixa. Isso nos dá brecha para aumentar o consumo”, argumenta Freitas. “O PIB veio maior do que o mercado esperava, mas com uma desaceleração esperada, o que indica que estamos crescendo em velocidade de cruzeiro e devemos seguir de maneira sustentável nos próximos anos.”

Eu sou uma brasileira que está melhorando de vida. Com um emprego fixo, dá para entrar nas prestações. Já comprei geladeira, fogão e vários móveis”
Giullia Amancio da Silva, funcionária terceirizada do GDF

Brasileiro 'hipoteca' casa para conseguir empréstimo

E tem gente que me chama de louco por afirmar que estamos em uma bolha imobiliária.

Brasileiro 'hipoteca' casa para conseguir empréstimo
Bancos ampliam modalidade de empréstimo, que permite juro mais baixo e prazos maiores
Agência Estado
http://economia.estadao.com.br/noticias/economia%20geral,brasileiro-hipoteca-casa-para-conseguir-emprestimo,33368,0.htm

BRASÍLIA - O boom dos financiamentos imobiliários no País fez com que os bancos despertassem o interesse para um novo negócio: a utilização da casa própria como garantia de empréstimos para o consumo. Essa é uma maneira de oferecer crédito com taxas de juros mais atrativas e prazo alongado - que pode chegar a 30 de anos - de pagamento.

No primeiro semestre, esses empréstimos dispararam em instituições como a companhia hipotecária Brazilian Mortgages (BM) e bancos como Caixa Econômica Federal e Bradesco. Também atuam nesse setor o Santander e Itaú. Mas até quem não trabalha nessa área, como o Banco do Brasil, já está pensando em ter o produto em seu portfólio.

Desde 2007 no mercado, a Brazilian Mortgages é uma das pioneiras nesse tipo de transação. Com o aumento de mais de 200% no número de contratos firmados - que passou de 131 para 432 - no primeiro semestre deste ano na comparação com o mesmo período de 2009, a companhia se prepara para elevar o número de escritórios no País.

Segundo o diretor da empresa, Vitor Bidetti, em 2007, tinha cinco escritórios, e agora já possui 30. A expectativa é de que esse número chegue a 60 escritórios no fim deste ano e a 120 até 2012. "Essa modalidade de crédito está amadurecendo. A grande vantagem para o cliente é que pode acessar mais recursos, de forma mais barata e com mais tempo para pagar", afirmou Bidetti. "Cerca de 80% das propriedades não foram refinanciadas", acrescentou o executivo para mostrar o potencial existente no mercado. O tíquete médio das transações feitas pela Brazilian Mortgages é de R$ 150 mil e os empréstimos podem ser pagos em até 30 anos com juros de até 1% ao mês. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

2 de set. de 2010

A próxima rodada da ciranda do crédito by Paulo Rabello de Castro

A próxima rodada da ciranda do crédito

http://www.imil.org.br/artigos/a-proxima-rodada-da-ciranda-do-credito/
agosto 6th, 2010 by Paulo Rabello de Castro

A segunda maior satisfação do ser humano é a obtenção de crédito (a primeira é o amor realizado, mas este artigo é sobre crédito mesmo). O dinheiro à disposição abre as portas dos desejos e alarga as asas dos sonhos antes impossíveis de realizar. Crédito é poder. Daí a dificuldade de lidar com ele no dia a dia. Os desejos estão lá, numa solicitação permanente ao consumidor, bastando casar o impulso de compra à oferta de crédito na praça. E haja oferta.

O Brasil já viveu uma vida sem crédito. A grande inflação dos anos 80 e 90 eliminou quase por completo o instrumento do crédito pessoal, e mesmo o empresarial. Só tomava dinheiro emprestado, no setor privado, quem estivesse a ponto de quebrar. Com o advento do Plano Real e a possibilidade de planejar o futuro com mais estabilidade e menos inflação, o sistema financeiro começou a viabilizar operações de empréstimo ao consumidor. Mesmo assim, persistiam taxas escandalosas, embutidas em prestações que podiam se estender, no máximo, a 18 meses de prazo. Ainda estava longe de ser o céu para quem queria dinheiro a fim de realizar desejos de consumo.

Com o governo Lula, muito em função da melhoria do crédito internacional que o Brasil passou a desfrutar, o consumidor sentiu o doce poder de escolher, comprar e levar para casa seu objeto de sonho quando não a casa, ela inteira. A publicidade aproveitou para fazer sua parte. Os comerciais de produtos, da barra de chocolate se derretendo, do frango crocante, do automóvel esportivo com a tábua de surfe em cima e a garota linda dentro, com as crianças sorridentes e as famílias realizadas, tudo conduz a imaginação para o mundo do prazer alcançável, logo ali na frente, com uma simples ficha de crédito preenchida e aprovada. Depois, um abraço é só curtir e ir pagando em suaves prestações que podem chegar a sete anos, para um automóvel, ou até 30, portanto quase o resto de sua vida, se for o tão sonhado teto. Aliás, o nome encontrado para o programa popular do governo é rigorosamente correto nesse particular: Minha casa, minha vida.
O brasileiro acabou de empatar em dívidas os próximos dez anos de ganhos salariais

Andamos mapeando a virada do crédito a partir de 2003, pois foi a partir desse ano que, primeiro vagarosamente e em seguida embalado pelo lançamento do consignado, o consumidor partiu para as compras. De lá para cá, a massa salarial brasileira também vem se expandindo quase sem interrupção, outro quase milagre da política de estabilidade econômica. O tomador de crédito faz contas diante de seu objeto do desejo e calcula se pode enfrentar prestações futuras. O vendedor procura facilitar tudo, suavizando ou eliminando a parcela à vista e deixando as prestações mais pesadas para as calendas. Resultado: o brasileiro se financia mais e mais. O processo está bonito. Começou muito timidamente: em 2003, o brasileiro comprometeu em dívida nova só 130% do aumento salarial que teve naquele ano, de R$ 7,8 bilhões. Ou seja, tomou crédito novo em ritmo apenas um pouco acima do que ganhou a mais. Era valor muito modesto, se comparado ao potencial do mercado nacional de consumo e habitação.

Desde então, o consumidor tomou gosto de verdade pelo uso do crédito. Entre 2009 e este ano, o brasileiro agora se anima a comprometer 250%, ou 3,5 vezes seu aumento salarial anual, que chega a uma faixa de R$ 40 bilhões. Hoje, ele se endivida a um ritmo de cerca de R$ 140 bilhões por ano, velocidade alucinante para quem só comprava à vista, poucos anos atrás. É outra vida, muito mais gostosa e perigosa. Fizemos uma estimativa do que o brasileiro tem acumulado no crediário da praça. Desde 2003, a ciranda do crédito deixou no pendura cerca de R$ 400 bilhões. Compare agora os R$ 40 bilhões de ganho salarial atuais (esquecendo juros) com esses R$ 400 bilhões de dívida pessoal. Conclua, então, que o brasileiro acabou de empatar os próximos dez anos de ganhos salariais com o saldamento de seus compromissos financeiros. Até 2020, estaremos correndo atrás da próxima prestação. E daí, não foi bom para você?

Fonte: Revista “Época” – 02/08/10

A CULTURA DA DIVIDA

A CULTURA DA DIVIDA
Publicado em: 01/09/2010
http://www.artigonal.com/financas-pessoais-artigos/a-cultura-da-divida-3177400.html

Qualquer referência que se faça sobre economia ou poupança, sempre nos remete a idéia do cofrinho em forma de porquinho. Este comportamento cultural de nossos ancestrais, pais ou avós, reflete o espírito de reservas tão antigo quanto o comportamento antropológico na reserva de alimentos. Esta característica do ser humano que bem diferencia dos animais levou sua supremacia sobre todas as espécies vivas superiores, tanto em poder (inteligência) como em número quantitativo de seres.

As crianças sempre eram orientadas pelos pais, para que parte de sua mesada fosse colocada num cofrinho, para num momento futuro terem para uma eventual necessidade. Cremos que esta atitude fosse um modo não tanto de enriquecimento, mas muito mais uma pedagogia para que os filhos no futuro tivessem o espírito de fazer reservas financeira para enfrentar os momentos dramáticos da vida, como doenças, desemprego, e mesmo em investimento na casa da futura família.

Somos de uma geração criada numa cultura econômica da inflação, que qualquer poupança que se fizesse gerava uma frustração, pela amarga perda do valor aquisitivo da moeda. Diante desta verdade, esta cultura foi devagarzinho se esvaindo para dar lugar a um consumismo desvairado, como se nada mais adiantasse fazer economia. Embora, estejamos numa nova realidade de moeda estável, infelizmente esta bela prática de fazer economia do cofrinho se transformou numa lenda e mito da história.

A realidade econômica de hoje dando oportunidade de se fazer compras e mais compras leva ao comprometimento do futuro em pagamento de prestações que já ultrapassaram o limite de nossa própria existência. Prestações a se perderem de vista, de 30, 60, 80 meses e por grandeza em 10, 15, 20 e até trinta anos (Já tem charges de 250 anos!). E pior de tudo, sem o mínimo cuidado dos juros, mas sim e somente sim com a possibilidade orçamentária do momento. Elas deverão ser pagas pelo suor do trabalho numa verdadeira escravidão invisível do futuro. Tudo por conta do desejo de consumir, ou melhor, usufruir agora, do que esperar para o futuro numa oportunidade mais segura e sem comprometimento irresponsável de sua renda. Vivemos o "carpe diem quam minimum credula postero" (aproveite este dia, confia o menos possível no amanhã), ou seja, o aqui e agora. Ninguém mais quer esperar e fazer uma economia para aquisições à vista, mas sim mergulhar num endividamento monumental que não se sabe mais onde irá parar. Pelos estudos macroeconômicos esta bolha financeira criada pelo artificialismo do crédito escritural, levará fatalmente a um beco sem saída, ou seja, para um colapso da economia.

A saudável cultura ensinada pelos nossos pais na sua santa ignorância do cofrinho simbolizada no porquinho de porcelana, foi substituída por algo mais macio, cartões de crédito, carnês, faturas, boletos, cheques pré-datados etc., pelo delírio de consumo, traduzida na cultura da dívida.

Sergio Sebold – Economista e Professor – sebold@terra.com.br

Entidades contestam hipótese da bolha imobiliária no DF

Bom, o interessante desta notícia é que a enquete do correioweb sobre bolha imobiliária revelou que 76% dos que responderam acredita que estamos em um processo de bolha, por mais que os "especialistas desinteressados/corretores/construtores" do setor paguem os "repórteres" para dizerem o contrário.

Entidades contestam hipótese da bolha imobiliária no DF

CorreioWeb - Lugar Certo
http://noticias.lugarcerto.com.br/imoveis_correiobraziliense/template_interna_noticias,id_noticias=40523&id_sessoes=198/template_interna_noticias.shtml

27/08/2010 - O primeiro Boletim de Conjuntura Imobiliária do Distrito Federal, divulgado neste mês, mostra que o mercado local de imóveis está aquecido. Porém, a alta demanda, a elevação dos preços e o sucesso de vendas dos lançamentos e dos usados voltam a suscitar o debate sobre a formação de uma bolha especulativa no DF. Para 76% dos 3.402 internautas que opinaram na enquete do CorreioWeb sobre o assunto, esse risco existe. O tema, no entanto, gera controvérsia entre especialistas.

Segundo o presidente do Sindicato da Habitação no Distrito Federal (Secovi-DF), Carlos Hiram David, a hipótese da bolha é uma visão “pessimista” e “irresponsável”. Mas, no entendimento do economista e professor do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) Adolfo Sachsida, o risco é real. O pesquisador esteve à frente da criação do Índice Bolha, indicador econômico da Universidade Católica de Brasília (UCB) que calcula, desde março deste ano, o risco mensal da especulação imobiliária em quatro regiões — Asa Norte, Asa Sul, Sudoeste e Águas Claras.

Embora não creia na possibilidade iminente de estouro da bolha, o atual coordenador do índice da UCB, Celso Vila Nova, alerta que há indícios de bolha em formação. Segundo ele, o principal é o descompasso entre o que se paga para comprar e o que se ganha com o aluguel de imóveis nas áreas pesquisadas. Conforme projeção de julho do indicador econômico, a locação gera aos proprietários um lucro em torno de 4% ao ano. “É um retorno baixo quando comparado aos demais investimentos seguros, como comprar títulos do tipo Certificado de Depósito Bancário, que rendem em torno de 8% no mesmo período”, explica Vila Nova.

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Baixo retorno do aluguel pode causar estouro da bolha imobiliária, diz estudo

Controvérsia
O Índice Bolha foi contestado por autoridades do setor durante o lançamento do Boletim de Conjuntura Imobiliária, realizado no último dia 19/8, na Universidade de Brasília (UnB). O presidente do Secovi-DF critica a base do estudo. “Pôr um nome desses em um índice é imaturo. Nós coletamos nossos dados com base em negócios realizados. Na Católica, eles fizeram um levantamento dos negócios ainda não concretizados”, alfineta David.

Já o chefe do Departamento de Economia da UnB, Roberto Ellery, disse que respeita o trabalho da Católica, mas acredita que o cenário brasiliense é contrário ao que o estudo aponta. “Não consigo enxergar bolha. O que eu vejo é um mercado que tenta se adaptar à demanda. Como o aumento da procura é rápido e o da oferta é lento, o preço aumenta, não tem jeito”, analisa.

Para ele, o Brasil tem um panorama muito diferente dos Estados Unidos, onde houve estouro da bolha imobiliária em 2007 — que culminou na crise econômica internacional no ano seguinte. “Os Estados Unidos mantinham a taxa de juros baixa e facilitavam a concessão de crédito. No Brasil, a taxa é sempre alta e o financiamento de imóveis é difícil”, compara. No caso do Distrito Federal, Ellery acredita que só será possível identificar descompasso entre preço do aluguel e venda a médio e longo prazo.

A hipótese da bolha também foi descartada pelo presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do DF (Fecomércio-DF), Miguel Setembrino. “Imóvel é a única garantia efetiva brasileira. Essa percepção está incrustada no sistema financeiro do Brasil. É o que os bancos chamam de garantia real”, afirma.

Procurado pela reportagem, Sachsida afirmou que o indicador é sério e que a UCB “não ganha nada” com a existência ou não da bolha. “A pesquisa quer contribuir para o desenvolvimento do Distrito Federal”, diz. Quanto à crítica à metodologia do estudo, o economista afirmou que não tinha acesso aos dados divulgados no Boletim de Conjuntura Imobiliária, na época em que o índice foi criado. “Se tivéssemos, usaríamos. O que fizemos foi perguntar às grandes imobiliárias quanto estavam pedindo [pelo imóvel]. E, se houve uma diferença entre o valor do pedido e o do negócio concretizado, ela não foi tão grande a ponto de atrapalhar o resultado da pesquisa”, avalia.

Sachsida também refutou o argumento de que é necessário mais tempo para identificar descolamento entre o preço da locação e o da venda. “Se pudéssemos usar um espaçamento de dados de 20, 30 anos, seria ótimo. Mas com números de cinco, seis meses já é possível identificar essa desproporção”, acredita.

Segundo o professor do Ibmec, a metodologia de cálculo do Índice Bolha é igual à usada pelos norte-americanos em 2007. “Eu morava nos Estados Unidos na época em que a bolha estourou. Lá, se falava que imóvel era um investimento 100% seguro. Seis meses depois [quando houve o estouro], já não era mais”, lembra.

Caixa Econômica emitirá títulos para financiar casa própria

Comentário do blog: E ainda falam que não estamos no meio de uma bolha imobiliária prestes a explodir. Estamos seguindo a risca a cartilha de como criar uma bolha.

Caixa Econômica emitirá títulos para financiar casa própria

do jornal Correio Braziliense - http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/09/02/economia,i=211064/CAIXA+ECONOMICA+EMITIRA+TITULOS+PARA+FINANCIAR+CASA+PROPRIA.shtml

Josie Jeronimo
Victor Martins
Publicação: 02/09/2010 08:36
O risco de faltar recursos para a casa própria está forçando o governo a uma solução ousada: a emissão de títulos garantidos pelos próprios empréstimos da Caixa Econômica Federal, que só no primeiro semestre alcançaram R$ 33,5 bilhões. A meta é reforçar a instituição para novos financiamentos. Atento à escassez de fontes como a caderneta de poupança, o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e o próprio Tesouro Nacional, o Executivo federal prepara uma operação de securitização (conversão dos contratos em papéis negociados no mercado) das dívidas dos mutuários e, assim, injetar dinheiro novo no mercado.

Sem dar detalhes da iniciativa, o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES), Luciano Coutinho, admitiu ontem que o governo está desenhando as medidas para incrementar os recursos disponíveis para a habitação. Fontes de alto escalão garantem que o pacote, ainda mantido sob segredo, prevê a emissão de papéis lastreados em contratos de financiamentos da Caixa Econômica Federal, principalmente os do programa de moradias populares. “O Minha Casa, Minha Vida será patrocinado pelo mercado”, revelou uma delas. A meta é evitar que o projeto lançado para turbinar a campanha da petista Dilma Rousseff ao Palácio do Planalto transforme-se em um verdadeiro fiasco.


Contratos para imóveis novos e usados assinados no primeiro semestre atingiram R$ 33,5 bilhões
A Caixa vai emitir papéis no Brasil e no exterior lastreados em empréstimos imobiliários. Esses títulos, segundo fontes ouvidas pelo Correio, vão pagar entre 4% e 8% ao ano. “Os analistas chegaram à conclusão de que o mercado para investidores de outros países em empreendimentos imobiliários para a classe mais abastada está saturado e que o nicho popular é altamente rentável para entidades financeiras”, avaliou um dos envolvidos no projeto de reforço da Caixa.

Demanda
Coutinho é um dos entusiastas do processo de securitização no Brasil. Em evento em Brasília, disse a jornalistas que, por meio de operações semelhantes, será possível aumentar os recursos destinados aos programas habitacionais. “É preciso aprimorar os mecanismos para melhorar a capacidade dos bancos de operar e emitir papéis securitizados. Existem ideias em discussão, mas não estão na esfera do BNDES”, afirmou.

Os envolvidos na elaboração do projeto afirmam que, na visão da equipe econômica, apenas recursos públicos (FGTS e Tesouro) não seriam suficientes para o programa engrenar. “Até 2014, o Brasil precisará de R$ 500 bilhões para o mercado imobiliário. A poupança, hoje, dá conta da demanda, mas não vai conseguir por muito tempo”, alertou José Luis Rodrigues, sócio da consultoria JL Rodrigues.

Resistência
A despeito da possibilidade de a securitização rechear os cofres da Caixa e impulsionar o Minha Casa, Minha Vida, nos bastidores, parte da diretoria do banco resiste à operação ou pelo menos tem se mostrado receosa. A preocupação decorre de como a estratégia será executada. Alguns dos dirigentes temem que instituições financeiras adquiram os papéis e o cliente final — consumidor que realizou, por exemplo, o financiamento de um apartamento — seja assediado a migrar para o novo banco ou procure novos empréstimos em outras fontes.

Há ainda receio de que essas operações tragam insegurança ao mercado brasileiro ante um eventual aumento da inadimplência e dê início a uma bolha imobiliária, a exemplo da crise que explodiu nos Estados Unidos há dois anos. A despeito desse temor, analistas descartam uma repetição do problema no Brasil, já que as regras domésticas são muito mais severas. Quem adquire crédito na Caixa nunca irá saber quem é o investidor que comprou o título lastreado em seu empréstimo e não terá qualquer relação com ele. “É o melhor método para reciclar dinheiro, para que não falte recursos para investimentos”, explicou Rodrigues.

Em nota, a Caixa reconheceu a securitização como um importante instrumento de captação de recursos para financiar o crédito imobiliário. Mas, ainda assim, em um trecho da nota esquivou-se do assunto. “O governo federal regula essa operação, porém não a realiza, isso porque, para securitizar crédito imobiliário, deve-se possuir carteira de crédito imobiliário, o que não é função e nem atividade do governo”, disse.

O número
R$ 500 bilhões
Total necessário para bancar o sonho de moradia até 2014 no país


E eu com isso

Ao optar pela securitização dos créditos imobiliários, o governo pretende ofertar mais dinheiro aos consumidor. A operação pode aumentar a concorrência entre os bancos e reduzir o custo de empréstimos para a compra da casa própria. Quanto mais as instituições disputarem clientes, mais vantagens poderão ser obtidas. Mas, ainda assim, há riscos para o mercado. Caso a inadimplência se eleve demais entre os que estão financiando uma residência, os compradores dos papéis lastreados em empréstimos correm o risco de ficar com um título podre na mão, o que afetaria negativamente o custo dos financiamentos ou ainda daria vida aos mesmos fantasmas que levaram, em 2008, a uma quebradeira em cascata no setor nos Estados Unidos. (VM)


Investimento precisa aumentar

A base do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 5,5% entre 2011 e 2013 será o avanço dos investimentos ao ritmo de 10% ao ano. Pelas previsões do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES), Luciano Coutinho, 5 grandes grupos vão impulsionar esse avanço: petróleo e gás, energia elétrica, construção civil, logística e agronegócio. “No caso do petróleo, isso representa o desenvolvimento de cadeias produtivas para suprir a Petrobras”, disse. Responsável pela exploração das reservas gigantes de petróleo do pré-sal, a estatal será um dos vetores da expansão.

Na avaliação de Coutinho, os investimentos vão chegar a uma proporção de 19% do PIB em 2010. No ano da Copa do Mundo no Brasil, 2014, a taxa terá atingido 22%, um avanço ainda pequeno diante da imensa necessidade de obras de infraestrutura e logística para receber o mundial . “O crescimento do Brasil vai ser em torno de 5,5% nos próximos anos. Para garantir isso, precisamos investir mais. Temos de aumentar a poupança (interna) para realizar esses investimentos”, afirmou.

O presidente do BNDES destacou a importância do crédito aos consumidores e a necessidade de ampliação da taxa de poupança do país como garantias para o tão almejado crescimento sustentável. Segundo suas projeções, no fim de 2010 a oferta de crédito no Brasil irá corresponder a 49,5% do PIB. Em 2014, chegará a 70%. (VM)

ENTREVISTA EXPLOSIVA com ALOYSIO BIONDI

ENTREVISTA EXPLOSIVA com ALOYSIO BIONDI
(Revista Caros Amigos - No. 19/Outubro de 1998)

Retirado do blog Mimicas - http://blog.mimicas.com/artigos/entrevista-explosiva-com-aloysio-biondi/
A manipulação do jornalismo econômico
Marco Frenette - O Jânio de Freitas fez um artigo falando da linguagem hermética que os economistas usam, e deu um exemplo, dizendo que lê colunas de economia e só compreende 15 por cento. E a questão que ele levanta é se isso é devido ao fato de ser um assunto realmente complexo, ou existe uma má formação dos economistas, ou ainda se há um complô nas editoras para transformar aquilo numa maçaroca só. Com a sua experiência, como você vê isso?
Aloysio Biondi - Como o que está predominando no noticiário é o mercado financeiro, voltou tudo a ser muito hermético, porque se fala como se o leitor comum estivesse acompanhando as expressões que eles usam e que querem dizer o contrário, mas não precisa ser só na área financeira. O Fernando Henrique, hoje de manhã, falou que vai “alargar a base” dos contribuintes, quer dizer, alargar a base significa aumentar o número de contribuintes. (risos) Se ele aumentar, vai pegar quem ganha menos. Mas vejo as coisas de maneira totalmente diferente. Na década de 60 tinha a história de que você não podia escrever em economês. Até uma vez, eu estava na Veja, em 1969, já tinha saído da Visão, onde fazia matérias de capa contra a política econômica do Delfim, e o Delfim não gostava muito de mim naquela época, e fui para a Veja ser editor de mercado de capitais uma coisa de que teoricamente eu podia falar, a bolsa estava no auge e tal. E o Roberto Civita começou a insistir que eu assumisse também a editoria de economia. Eu dizia: “Não vai dar certo, porque não vou falar que tem milagre”. E ele: “Vai dar, sim” etc. E eu até brincava dizendo que a sorte dos; ministros e dos donos de revista e jornal era que o povo não entenda o que estava escrito ali. Quando escrevesse em português… e aí tive a prova disso quando o Banco Mundial recusou um empréstimo para o grupo Hanna fazer um ramal no porto de Sepetiba - que é uma coisa que vai dar de novo uma grande tragédia, porque é totalmente antieconômico - e o governo brasileiro liberou o dinheiro para esse grupo fazer o ramal. Eu sabia que era antieconômico, tinha parecer do Banco Mundial contra, dizendo que a Central do Brasil ia subsidiar a mineradora. E no meu texto abri um travessão só: “subsidiar, isto é, a Central do Brasil vai ter prejuízo para a Hanna ter lucro”, e fechei. Na segunda feira, o Roberto me chamou: “Será que toda semana tenho de abrir a revista e me irritar?” Eu falei: “Ué, vocês dizem que não é para escrever em economês; em segundo lugar, avisei que, quando começasse a escrever em português, as pessoas iam entender e ia ser diferente; em terceiro lugar, também não vou abrir a revista e me envergonhar, então não dá. Volto para o mercado de capitais”. E voltei para o mercado de capitais.
Marco Frenette - Nesse sentido, essa linguagem hermética…
Aloysio Biondi - O grande problema não é a linguagem hermética. O grande problema é que o jornalismo econômico nunca esteve tão vergonhosamente atrelado ao governo. A ombudswoman da Folha até falou disso. Por exemplo, a imprensa fica falando só da queda das bolsas. As bolsas só caem depois que a economia estourou. Os países asiáticos escancararam o mercado, tiveram saldo negativo na balança comercial, precisaram atrair capital estrangeiro para cobrir, elevaram os juros - chegou um momento em que não tinham mais o que fazer, aí o investidor tem medo de calote e sai correndo. A bolsa cai quando todos os indicadores da situação da economia real mostram que a economia já foi pro brejo. A bolsa é a última etapa, mas o noticiário é todinho centrado na bolsa. E você vê aí o jornalismo, a televisão, dizer bisonhamente: “Mas em que isso afeta a vida do cidadão comum? O que a bolsa tem a ver?” A bolsa não tem nada a ver, só que ela mostra que a economia está mal. No caso do Brasil, se você pegar os dados de maio, saíram 400 milhões de dólares; em junho saíram 800 milhões de dólares, só da bolsa. Julho teve resultado positivo apenas por causa da privatização da Telebrás. Então, o jornalismo nunca enfrentou uma fase tão ruim no Brasil. No tempo da ditadura, a gente sempre aceitava um projeto sabendo que talvez não fosse receber etc., mas que representava uma brecha. Qual é essa brecha? São os veículos que estão mal das pernas, pagam mal e contratam pouca gente, 0 diferencial que tem é você poder falar alguma coisa. Só que a hora em que você cresce, inclusive politicamente, começa a incomodar. E aí o patrão é procurado para acordo, onde você dança. Isso é a história de projetos nesse país.
Sérgio de Souza - Quem procura o patrão?
Aloysio Biondi - O governo.
Sérgio de Souza - Por meio de que pessoa?
Aloysio Biondi - Ah, não sei. Sei que hoje é trágico, porque as empresas jornalísticas fecharam com esse governo, não só pela onda neoliberal, mas também por causa da privatização das telecomunicações. Como todas as empresas jornalísticas acham que o futuro é a tal da multimídia, ninguém queria ficar de fora, e todos os grandes grupos jornalísticos entraram nessa concorrência. E, como sabem que esse governo não brinca em serviço, porque essa história de que é concessão e que é leilão é muito relativa, todo mundo quis ficar bem. Pelo seguinte: essa história da crise do mercado financeiro - muito antes de a bolsa começar a cair, você tem outros indicadores, como a taxa de juros para empréstimo para o Brasil lá fora. O mercado futuro de dólar, o mercado futuro de juros, esses mercados indicam o grau de desconfiança no país. Mas as informações negativas não aparecem nos títulos ou com destaque. No meio da coluna está a informação de que ou já houve saída de dólares, ou há pressão sobre os juros. O Brasil quebrou, na verdade, já no fim de maio. Foi a única vez que um jornal (a Folha) deu de manchete alguma coisa que não fosse bolsa. O Estadão, nada. A Folha deu de manchete: “Governo cede ao mercado e adota juros pós-fixados”. Por quê? Porque fazia três semanas que o governo estava tentando vender título para rolar a dívida e não conseguia, o mercado não queria mais. Por quê? Porque o mercado sabia que o governo ia ter de elevar os juros de novo. Não é porque o mercado seja ruim, é que os caras são informados, eles fazem isso para não ter prejuízo. Sabiam que a situação era crítica…
Carlos Azevedo - O que o mercado sabia concretamente?
Aloysio Biondi - O mercado sabia concretamente o que até eu escrevi em abril para a Revista dos Bancários. Todo mundo sabia concretamente, há muito tempo. Você sabe quanto vence da dívida interna do governo neste mês de outubro? Todo mês vencem uns 22, 23. Sabe quanto vence agora? Quarenta e sete do Tesouro e 8 do Banco Central.
Carlos Azevedo - Quarenta e sete o quê?
Aloysio Biondi - Bi. O governo tem de rolar 55 bi neste mês de outubro agora. Todo mundo sabia, o mercado sabia. Isso seria a manchete. Antigamente, quando você hierarquizava a informação, dava a informação principal na manchete, ou no lead, não escondendo no meio. Qual é a informação? De julho a setembro, o governo tinha de rolar 105 bilhões da dívida interna. E da dívida externa também você sabia mais ou menos quanto tinha de rolar, de 40 a 50. Então, em maio, a Folha deu aquela única manchete e depois a imprensa não falou mais nada. Nem nas seções de finanças. A Folha, algumas vezes, de um mês para cá, dá no título da seção de finanças: “Dólar é pressionado”. Depois que a fuga de dólares começou, não dava para esconder, mas muito antes você tinha todos esses sintomas. Por exemplo, as linhas de crédito de importação e exportação começaram a disparar os juros, empresas brasileiras que tinham empréstimo lá fora foram renovar e não conseguiram, ou os credores chegaram a pedir 8 por cento acima da taxa. E tudo isso é colocado no meio do texto e o título é bolsa. Aí vêm dizer que é incompetência dos jornalistas. Incompetência uma pinóia, tem jornalista aí de altos conhecimentos técnicos, e você pega a coluna dele de três anos para cá, quantas vezes ele falou de um problema do pais, realmente? Colunistas famosos. Não falta conhecimento, não, aquilo é escondido deliberadamente. Porque, se sai um estudo dizendo que o aumento do funcionalismo vai provocar um rombo, ou acréscimo de despesa de 1 bilhão, que é uma ninharia, isso vai para a manchete de domingo do jornal. Agora, esse último aumento de juros deles, 49 por cento, segundo os cálculos só nestes quatro meses são mais 16 bilhões, 4 bilhões por mês. E é isso que tinha de estar na manchete.
José Arbex - Mesmo a passagem do perfil de juros prefixados para pós-fixados, ninguém falou e isso é um escândalo.
Aloysio Biondi - O pós-fixado é exatamente isso, não existe ataque especulativo, é conversa. O banqueiro, o investidor, o administrador de fundo estrangeiro vêem que a dívida está em 300 bilhões, o déficit em 7 por cento do PIB, a balança comercial com buraco de 8 bilhões, o turismo foi para 6 bilhões por ano, remessa de lucro etc., ele faz as contas e sabe. Na verdade, como eu disse, o pais já quebrou no fim de maio, quando não conseguia mais vender título. Esses dados todos o mercado tinha. Havia 60 bilhões de compromissos externos para pagar e uma rolagem de dívida interna na faixa de 20 bilhões por mês e que em outubro ia bater em 55. E tem outra coisa escandalosa: é tão manipulado, que eu recebia no DCI o noticiário da Agência Estado. E, no meio do texto sobre o mercado, o repórter colocava já esse começo de fuga ou a pressão sobre os juros, e eu dava em manchete: “Aos poucos o contorno de uma nova crise cambial”. No dia seguinte eu pegava o Estadão, e a coluna que eu tinha recebido da Agência Estado, no Estadão não é que não estava no titulo da página, tinha sido cortada a informação. Até andei guardando alguns para um dia mostrar. Então é uma grande manipulação, sim. Quando chegou ao Brasil em 19 de julho o homem do FMI, o Tanzi, já avisou que o Brasil precisava fazer um “ajuste fiscal”, um pacote, pois o rombo do Tesouro estava preocupando os banqueiros e os investidores, criando o perigo de uma “fuga de dólares”. Isso foi em julho… A Folha deu em duas colunas na primeira página, o Estadão não. Quer dizer, o FMI vem aqui em Brasília, fala que o rombo estava preocupante, que o governo ia ter de fazer um ajuste, e diz literalmente, a Folha deu entre aspas: “Se não pudesse fazer agora, que fosse logo depois das eleições, em outubro”. Isso não devia ser manchete? Isso foi em 19 de julho, você estava às portas do leilão da Telebrás então estava vivendo um momento totalmente artificial. Foi o canto do cisne ou o canto do pato, como você quiser. (risos) Só houve um ligeiro aumento porque estava entrando dólar em razão da iminente privatização da Telebrás, mas em maio/ junho a bolsa já tinha perdido dólares. A crise já tinha chegado. Mas a imprensa escondeu.
A perda da credibilidade
João Noro - O que é a Moody’s?
Aloysio Biondi - É essa agência de consultoria que dá nota aos países. Bem, tem um terceiro fato que os jornais dão só lá dentro, o que é uma grande esculhambação: desde outubro, o governo está usando maciçamente o BNDES, o Banco do Brasil, para tentar segurar o dólar para não estourar, não ter de desvalorizar o real, e segurar a bolsa. Os fundos de pensão tiveram grande prejuízo no primeiro semestre. E isso vem no meio das colunas dos jornais. Primeiro vinha só assim: “Operadores garantem que houve de novo operação chapa branca”. Nem falavam o que era. Eu puxava para título de primeira página no DCI. Esse pessoal do governo é tão incompetente, que por volta de abril dizia: “Beleza, acabou a crise”. Com essa convicção, um diretor do Banco Central deu uma entrevista para o Celso Pinto (colunista da Folha) e confessou que, em outubro de 1997, o Banco Central entrou maciçamente no mercado e que, inclusive, o Banco do Brasil chegou a ter 20 bilhões de dólares vendidos contratos em mercado futuro - para segurar a cotação, isto é, para evitar a desvalorização do real porque, com todo mundo querendo comprar para mandar para fora, os preços iam subir. O Banco do Brasil, para dar a impressão de que o governo tem o controle da situação, passa a vender, a mando do banco Central, que usa também alguns banqueiros amigos. Então, as grandes negociatas podem estar sendo feitas com essas intervenções do governo, não é?
Marina Amaral - Quando você diz que o país quebrou em maio, as pessoas que acompanham economia já não sabiam que isso ia acontecer?
Aloysio Biondi - Aí vem um aspecto. O célebre artigo do Krugman - quando ele fala, todo mundo cita, não é? - tem um parágrafo muito interessante, em que ele diz que precisa ter coragem para admitir que a liberação de mercados teve efeitos desastrosos. Ele entra na área psicológica, dizendo que as pessoas estão até com vergonha, depois destes quatro anos de exaltação do modelo neoliberal, agora chegar e dizer: “Olha, a gente estava errado”.
Marina Amaral – Eu tinha perguntado se não foi uma surpresa que o país quebrasse em maio?:
Aloysio Biondi - Não, essa manipulação, inclusive, está no meio dos textos. Você pode pegar um jornal de hoje, está lá: “Segundo operadores, o Banco do Brasil voltou a tentar segurar as cotações etc.”. Então, você tem o governo despejando rios de dinheiro no mercado. Mas a imprensa não dá destaque.
Mais exemplos de manipulação editorial
João Noro - Você poderia explicar o que é a crise asiática, a mundial, e a correlação com o Brasil?
Aloysio Biondi - Espera aí, lembrei de outra coisa na fala do Krugman. Ele diz também: “Imagina o editor de revista que durante estes quatro anos privou com banqueiros, economistas etc., e que nestes quatro anos fez apologia do modelo, como vai agora chegar para o leitor e ….”- manda ele pro Brasil que ele aprende com os caras aqui. (risos) Há colunistas que passam quatro anos falando outra coisa, e depois escrevem: “Como eu previ…”. É claro que as editorias de economia seguem uma orientação da própria empresa jornalística: “Não vamos ser pessimistas”. Porque, se a Folha num determinado momento deu a manchete e depois não deu mais, e se o Estadão não deu nunca, e se as próprias seções de finanças não jogam no título o que está acontecendo, evidente que isso é uma orientação editorial, mas a televisão…
Sérgio de Souza - Tem um programa diário sobre economia na Globo News, de meia hora, ninguém entende nada do que eles falam. (risos)
Aloysio Biondi - Aí você entra na história desse comportamento coletivo. Na época do Simonsen, ele não falava “nível”, falava “patamar”. Então todo jornalista escrevia: “O patamar…”. Quer dizer, achavam: “lá posso ir no almoço do Clube Nacional, porque já sou da tchurma”. Acontece muito isso, o jornalista econômico introjeta, acaba se sentindo parte do sistema. E, de modo geral, acho que neste momento há uma dificuldade da equipe econômica e dos jornalistas econômicos em aceitar a realidade. Porque, depois da crise asiática, os textos são todos iguais. Claro que a longo prazo o Brasil é um pais inacreditável. Mas eles falam assim: “Existe confiança no Brasil, tanto que compraram a Telebrás”. Até eu queria, se tivesse dinheiro. A longo prazo e com aquele preço, é um negócio maravilhoso. Não tem nada a ver. Porque, a curto prazo, rombo na balança comercial, rombo em conta corrente, e déficit do governo, esses indicadores de que você pode ter um calote de uma hora para outra são terríveis. Para a gente fazer justiça, não é só a equipe econômica, não são só os jornalistas. Se você pegar os analistas desses grandes bancos, eles continuaram dizendo que o Brasil estava agindo corretamente. Elogiaram aquele pacote de novembro, mas vários economistas de oposição mostraram que o que se ia gastar com juros comeria de longe a pretensa economia.
José Arbex Jr. - Acho que existe uma sensação no Brasil de que não precisamos produzir nossa análise de mundo. Ela já vem pronta pela Reuters, pela CNN, pelo FMI, pelas grandes agências financeiras internacionais. Os jornais apenas reproduzem. Você não acha que junto à globalização veio uma certa homogeneização do pensamento, um certo sufoco do pluralismo de idéias que padronizou o discurso de muitos jornalistas, muitos economistas e muitos especialistas?
Aloysio Biondi - Acho que o noticiário é superficial e fragmentado. Mas o trabalho de edicação é de melhorar o nível da informação, transmitir a realidade, e isso não acontece. Veja o caso da Rússia, por exemplo: não explicaram por que a Rússia quebrou, mais uma vez você precisa ficar garimpando, aí descobre que a arrecadação na Rússia o ano passado foi de 20 por cento do PIB, este ano só 8 por cento. Por quê? Aí falam que é porque o russo não gostava de pagar imposto. (risos) Não é. É porque o preço do petróleo caiu pra burro, e a arrecadação de impostos com o petróleo despencou. Como aconteceu também com a Venezuela. Não tem nada a ver com o Brasil. A coitada da Venezuela tinha superávit, todos esses dados estão perdidíssimos no meio do noticiário. Venezuela não tem nada a ver, Chile não tem nada a ver, o preço do cobre despencou, crises típicas de balança comercial. No caso da Rússia é isso. Quebrou foi o Tesouro, que deu o calote. Então precisa saber se essas matérias não são ideologizadas. Falam assim: “A Rússia já recebeu 22 bilhões do FMI”. Quanto ela recebeu até agora do FMI?
José Arbex Jr. - Quatro bilhões, não é?
Aloysio Biondi - Exatamente, a primeira parcela de 4 bilhões. O pacote é que era de 22 bilhões. “A Coréia recebeu 42 bilhões.” Primeiro, que não recebeu; segundo, que já está com 25 bilhões de reservas. Bom, sobre a uniformização da imprensa, acho que já se falou aqui o jornalismo nunca passou uma fase tão ruim, não só o econômico, mas como um todo. Se der tempo, vou citar algumas matérias nojentas que tenho visto. Nojentas, porque isso não é editar só, não é só tentar esconder. É pauta feita para manipular.
Sérgio de Souza - Pode falar agora.
Aloysio Biondi - Defendo a tese de que a gente foi submetido a uma lavagem cerebral, os donos de jornal devem ter sido chamados a algum lugar. O Betinho, num artigo na Folha, escreveu que tinha visto um documento do Banco Mundial, que deve ser ligado ao Consenso de Washington, dizendo que não adiantava tentar salvar os bancos estatais porque o Banco Mundial já falava que tinha de privatizar tudo. Então a gente sabe que tudo veio de fora. Houve um processo de lavagem cerebral, em que as televisões, por exemplo, começaram a mostrar desastres até na Paraíba, em Catitó - preparando a opinião pública para aceitar a privatização das rodovias. E é a técnica jornalística exercida com grande competência. Você imagina, todo mundo sentado na sala, 8 horas da noite, o Jornal Nacional - vi dois casos gritantes, onde até a pauta já é deliberada. Um é assim: foram descobrir 100.000 toneladas de feijão podre no Paraná. Olha a construção, a chamada: “No país da fome, 100.000 toneladas de feijão apodrecem nos armazéns do governo”. Falar em fome mexe com a emoção das pessoas, né? Primeiro, que os armazéns não são do governo, porque no tempo da Zélia se deu prioridade à iniciativa privada. O governo só pode estocar coisas nos armazéns dele depois que os armazéns privados estiverem lotados, que é para pagar aluguel para os caras. Se o armazém de Goiás esvazia, eles levam o feijão daqui para lá, para lá ficar ocupado. O Ceasa quebrou por causa disso. Como quebraram as siderúrgicas, porque cobravam 25 por cento do preço. Como as telefônicas tinham prejuízo, as energéticas tinham prejuízo, porque as tarifas eram irreais.
Marina Amaral - Mas, quando a televisão fala que no país da fome o feijão apodrece no armazém do governo, não é critica ao governo?
Aloysio Biondi - Estou lembrando que eles mostravam as rodovias provocando acidentes, quer dizer, foi toda uma constante para jogar a opinião pública contra o Estado administrador, para tirar o Estado de tudo. O outro exemplo foi também no Jornal Nacional: “Rio aumenta empregos, numa época de fechamento de vagas”. Isso foi pauta, o pauteiro sabia que 0 IBGE ia divulgar naquele dia um dado de desemprego. Então mostraram a fábrica nova da Brahma que ia ser inaugurada e aí, en passant, quase como quem não quer nada: “Isso é muito bom, no momento em que o IBGE anuncia que a taxa de desemprego está em alta. (risos) Houve uma grande manipulação para predispor a opinião pública a aceitar a privatização.
Carlos Azevedo – O caso da Telebrás também.
Aloysio Biondi – O caso da Telebrás, o último anúncio de televisão lá em São José da Tapera, o cara dizendo: “Nesse lugar aqui não tem nada, mas logo, logo terá telefone”. Mentira! Os contratos prevêem que é só a partir de 2001 em cidades de menos de 1.000 habitantes. Outra coisa: há uma intenção deliberada de manter o otimismo. Por exemplo: a inadimplência. Em São Paulo era de 70.000 carnês por mês. Foi para 100.000, 150.000, 200.000, 230.000, 250.000, 350.000, 400.000 por mês. Na primeira quinzena de setembro, 263.000.Vai para 500.000 carnês. Já bateu em 400.000 por mês, não é? E o acumulado? Está em 6 milhões de carnês, contra 7011.000 antes do governo FHC. Quando de 400.000 oscila para 386.000, vem manchete de página - o jornalista tem a temeridade de dizer “Inadimplência já começa a cair”. De 400.000 para 386.000, quando a média histórica era 70.000! Estamos vivendo realmente uma loucura. Reduzir IPI de carro para vender. Vender pra quem, se você tem 6 milhões de carnês em atraso?
José Arbex Jr - Você viu que bem mais de 20 por cento do cheque sem fundo é para comprar comida? Tem um dado muito curioso aí.
Aloysio Biondi - Pois é, tenho algumas manchetes bem canalhas, que mostram a que ponto o jornalismo chegou. Por exemplo, em outubro do ano passado, saiu a pesquisa de uma consultoria sobre o grau de endividamento do consumidor. Que serviu de alerta, mostrando que 40 por cento do orçamento das famílias estava comprometido já com prestações etc., e 20 por cento eram os pré-datados que os supermercados começaram a aceitar. O Estadão transformou esse índice de endividamento, que já mostrava para onde você estava caminhando, em manchete de capa na seguinte linha: “Real dobra o acesso do consumidor ao crédito”. (risos). E vinha lá a ladainha mentirosa: “Graças à estabilidade da moeda, as famílias brasileiras estão conseguindo planejar o seu orçamento. Por isso, hoje em dia 40 por cento…” - é aquele padrão de tudo o que acontece, por pior que seja, transformado num fato demonstrativo das maravilhas da estabilidade de uma moeda. O mesmo Estadão deu uma página, capa da Economia: “Banco do Brasil tem seis agências num só bairro”. E embaixo: “Distorção mostra grau de desperdício dos bancos estatais”. Bom, o bairro era Copacabana, que é uma das maiores densidades populacionais do mundo, um lugar que só perdia para Hong Kong e Nova Délhi, em termos de gente por metro quadrado. Já havia uma heresia inicial. E tinha um box, que na última linha dizia assim: “No mesmo bairro” (coitadinha da repórter, pensou: de repente o editor deixa passar e fico em paz com a minha consciência), “os dois maiores bancos privados brasileiros, Itaú e Bradesco, têm cinco agências cada um”. (risos)
José Arbex Jr. - E passou.
Aloysio Biondi - E o editor também quis fazer de conta. “Faz de conta que eu tenho ética ainda.” E tem a melhor de todas, que é da Gazeta Mercantil. Estou dizendo, houve uma campanha muitíssimo bem-feita contra o Estado. Sabe-se que, com todos os choques, os depósitos do Fundo de Garantia da década de 70, por exemplo, perderam até 95 por cento do valor. A matéria de uma repórter era maravilhosa duas páginas, um estudo mostrando essa perda por causa dos choques e dos expurgos. Dou um doce para quem adivinhar qual é a manchete: “Estado administra mal a poupança do trabalhador”. Isso não é ser incompetente, é ser canalha.
José Arbex Jr. (rindo) - Muito boa essa..
Aloysio Biondi - Muito boa porque não foi você que perdeu seu fundo de garantia na década de 70. Em resumo, a imprensa dos últimos anos é isso dai, além de esconder a informação, de não dar idéia do que está acontecendo, de transformar tudo em róseo, chega ao ponto de pautas deliberadas para esvaziar o fato do dia, e chega a inverter 0 sentido da notícia.
Ricardo Vespucci - E a partir de quando você detecta isso?
Aloysio Biondi - Desde antes de começar este governo, mas estes últimos quatro anos foram uma tragédia.
A inserção dependente
Carlos Azevedo - Nos anos anteriores ao Real, a balança comercial vinha sendo superavitária.
Aloysio Biondi - Superavitária até 12 bilhões.
Carlos Azevedo – A partir do Real ela começa a cair. E o Gustavo Franco, que era da área internacional do Banco Central na época, disse: “Que bom, é importante que isso aconteça e tal”. Como é essa história?
Aloysio Biondi – Este governo começou querendo o déficit. Depois, passou a dizer que a gente ia ter superávit, que os investimentos eram multiplicadores. E estão prometendo superávit faz tempo. Por que o Gustavo Franco defendia o déficit? Isso é teoria do Delfim, de economista: se você compra a prestação, você está, como eles dizem, antecipando seu consumo - você não tinha dinheiro para comprar uma geladeira à vista, foi muito bom o banqueiro emprestar para você porque, antes de ganhar o dinheiro para ter a geladeira, você já pôde comprá-la com empréstimo. Transpondo isso para um pais, eles dizem que é a mesma coisa: se você compra e fica devendo, é como se o cara tivesse te emprestado, não é? Porque você não tinha aquele dinheiro para comprar aquelas coisas “maravilhosas”, celular etc. Então foi uma “bondade” do governo norteamericano deixar você comprar.
José Arbex Jr. - Além disso, tem a sacanagem ideológica, que, vindo produto do exterior mais barato, isso vai forcar a competição aqui dentro e os preços vão cair.
Aloysio Biondi - Aí é que está. Quando a gente fala que houve uma lavagem cerebral, você teve desde a declaração do Collor, do carro-carroca, que nem era produzido por empresa brasileira, mas por multinacionais. Por exemplo, acabaram convencendo a opinião pública de que o empresário brasileiro era safado, não investia em tecnologia, era incompetente. Você vê gente que viveu na área econômica essa fase dizer assim: “A política de substituição de importações era equivocada”. Dá a impressão de que os governos brasileiros levantaram barreiras - “aqui não entra” -, e o empresário brasileiro ficou aqui tranqüilo, explorando, botando o preço que quisesse, sem se preocupar com tecnologia. Em primeiro lugar, a política de substituição de importações, depois do choque do petróleo, se deveu ao fato puro e simples de que você não tinha mesmo dinheiro para importar. Você ficou na situação de hoje, passou a ter grandes déficits na balança. O próprio Simonsen, que não era comunista, dizia que o Brasil tinha feito uma industrialização com pés de barro. Porque as multinacionais vieram, criaram fábricas de carro, de eletrodomésticos, e você não produzia o aço, não produzia o petróleo. Em 1982, quando o Brasil quebrou, produzia 170.000 barris de petróleo e consumia 1 milhão e 300.000 por dia, com o petróleo a até 26 dólares o barril. Como é que você ia comprar as outras coisas? Setenta por cento das divisas eram gastas só com petróleo. Então investiu maciçamente em aço, em alumínio, celulose, petróleo, na estrutura para atender esses projetos, e inverteu: passou a ter saldo na balança comercial. E o mercado foi fechado, pura e simplesmente, para o empresário nacional? Não. Havia os índices de nacionalização que o industrial tinha de atingir. Por exemplo: plataforma submarina da Petrobrás. Você precisa de um aço com uma liga de manganês, titânio, ou o que seja, para agüentar as correntes submarinas - havia os centros de articulação com a indústria, a Petrobrás, a Vale, o IPT entrava, desenvolvia o processo e a Aços Villares ia produzir aquele aço especial. Houve uma articulação, chamava-se núcleo de articulação, a USP entrava. Quer dizer, não foi como dizem agora. Primeiro, que você tinha mesmo que segurar a importação porque nem iam te vender. Você ia falar com o cara, ele dava risada, como é que você vai pagar, está com um buraco gigantesco só de petróleo! Não foi então um fechamento de mercado puro e simples. Você tinha realmente tarifas altas, que a Zélia começou a rebaixar. Mas, com o Real, houve uma redução brutal, escancarando o mercado. A tarifa do algodão, por exemplo, foi para zero e depois passaram para 3 por cento. Ficam dizendo que essa “abertura” era exigida pela globalização. E igual à dos outros países. Tudo é mentira para a opinião pública brasileira. Porque a tarifa modal, que é aquela cobrada para a maioria dos produtos, é fazer agora é o que, na abertura, teriam de ter feito. Principalmente a parte de financiamento. A agricultura quebrou por causa da TP, que chegou a ficar 40 pontos acima da inflação. Como agora: essa elevação da taxa de juros vai refletir na TR, quem tem imóvel financiado, com aumento de salário de 6 por cento, como fica? Quer dizer: tudo isso está levando a esta recessão. Você tem um desemprego ululante, logo você tem achatamento de salário, congelamento de vencimentos do funcionalismo, quebra da renda agrícola, para a classe média a TR de financiamento que sobe na base dos juros do mercado. Então, a gente volta àquilo: as pessoas estão loucas de achar que essa economia pode se recuperar. É matemática! Você não tem poder aquisitivo para essa economia levantar vôo de novo.
Carlos Azevedo - Mas pelo menos o Brasil conseguiu se inserir na economia internacional? Houve uma compensação?
José Arbex Jr. - De jeito nenhum. O mais dramático é que os dois principais produtos da pauta de exportação hoje são café e soja, igual há setenta anos.
Aloysio Biondi - Sustento há quatro anos que o problema foi esse escancaramento de mercado. Mas foi vendida ao consumidor a idéia de que ele ia ter acesso a coisas ótimas, maravilhosas e baratas. Só que nunca se fala que as importações têm financiamento de um ano, em que o empresário compra, vende e, se aplicar no mercado financeiro a essas taxas de juros - é o cálculo que o empresário faz -, ele está ganhando. Se vai pagar só daqui a um ano, já vendeu a mercadoria, está girando o dinheiro e não vai comprar do produtor nacional. E você teve barbaridades concretas como, por exemplo, nas telecomunicações. As importações de pecas pelas empresas já passaram o petróleo. A Ericsson tem equipamento com 97 por cento de peças importadas. As importações de peças eletroeletrônicas são 12 bilhões de dólares. Quando você começa a olhar os dados, vê que o governo fica dizendo assim: “Agora a gente está importando máquinas e equipamentos para remontar a indústria e depois a gente vai exportar”. Só que, olhando nos mapas da Cacex (a minha briga com o Delfim em 1967, inclusive, foi por isso você vê lá: “máquinas, equipamentos, suas peças e componentes”. Então, quando eles falam em máquinas e equipamentos, você pensa que estão comprando máquinas para reconstruir as fábricas, mas tudo que estão trazendo de peças e componentes em substituição ao que era fabricado aqui não é para fazer fábrica, é para fazer telefoninho celular, mesmo.
Carlos Azevedo - Eles disseram que estavam importando muito, que eram bens de capital, mas não era assim.
Aloysio Biondi - Na época do Sérgio Motta, eles falavam em obrigatoriedade de usar 35 por cento de peças nacionais. Antes de sair os editais das teles, começou-se a discutir que índice de nacionalização deveria ser. Aí, na Gazeta Mercantil - que é excelente como repositório de informações, tem tudo, basta garimpar -, no meio da matéria dizia que o governo tinha concluído os estudos de obrigatoriedade de peças nacionais, mas que a indústria não tinha gostado, porque a sugestão do governo era de 5 a 10 por cento. Isso é um desaforo! Você chegar para o empresário nacional e dizer: vou usar 5 por cento de suas peças. E a indústria também já aceita tudo, a indústria ficou querendo 20 por cento. E o debate ficou por ai: é 20, é 10, é 20, é 10. Ai os compradores já diziam: não vamos ter tecnologia mais moderna se formos obrigados a comprar peca aqui - quer dizer, é sempre a mesma coisa. E o governo, dentro do princípio neoliberal que você pode apoiar mas não induzir, anunciou a regra assim: quando houver igualdade de qualidade e de prec,o, quem optar pelo produtor nacional e precisar de financiamento, o BNDES financia! Manchete dos jornais às vésperas do leilão: “Govemo apoiará industria nacional”. De novo você está induzindo a opinião pública a achar que tudo está sendo feito corretamente.
Saídas para a crise
José Arbex Jr - E tem luz no fim do túnel?
Aloysio Biondi • Há três semanas escrevi um artigo: “Não é o fim do mundo, apenas o recomeço” - porque todo mundo estava apavorado com a crise nas bolsas. A Gazeta Mercantil, às segundas-feiras, reproduz aqueles dados da revista The Economist sobre a situação das economias mundiais. Se o jornalista econômico tivesse o hábito de olhar a tabela, veria ali, por exemplo, que os tigres asiáticos já se recuperaram, a Coréia está com superávit na balança comercial de 25 bilhões de dólares em doze meses. O jornalismo econômico é como o jornalismo policial, é fragmentado. Dá o momento de recorde e o momento de grande crise. Depois não fala mais nada e todo mundo fica pensando que só tem crise. Que é o fim do mundo. A gente já passou por várias crises em que as pessoas pensavam que o mundo ia acabar. A crise do petróleo, a crise da dívida externa nos anos 80, tudo parecia indicar que o mundo ia acabar. Com a ajuda da imprensa, ai, sim, ideológica. Porque, quando estourou o negócio do preço do petróleo, os Estados Unidos queriam invadir o Oriente Médio. Então, as revistas, a televisão mostravam sempre os xeques com aquele bando de mulheres em Londres, Paris, fazendo compras. Ficava todo mundo com aquela idéia de que só existiam eles. Poxa, os árabes tinham indústria petroquímica, incríveis planos de investimento. Mas parecia que era tudo Ali Babá, que pegava petrodólar e botava na caverna “e aqui ninguém entra”. E não era isso. Os relatórios do Banco Mundial, do FMI repetiam isso, que a economia mundial ia acabar. A Nigéria, o Equador o México, todo mundo que passou a receber passou a comprar maciçamente, você só teve deslocamento do eixo de dinheiro. E o que foi vendido para a opinião pública mundial é que os árabes eram um povo bárbaro, que não ia gastar. Não se dizia que eles tinham planos de investimentos incríveis, o Brasil fez barganhas para construir ferrovias, usinas etc., em troca do petróleo.
Carlos Azevedo - Mas qual a saída para a crise?
Aloysio Biondi - Acho que o que vem aí é o fim desse período de favorecimento para os Estados Unidos. Assim como os árabes tiveram aquele período de euforia e que foi uma transferência de renda dos países tradicionais para os países produtores de petróleo, nestes últimos quatro anos os Estados Unidos deitaram e rolaram com esse escancaramento de mercado. Você vai ter agora a inversão, com os países “escancarados” exportando para os EUA. Assim como o Japão também nadou em dinheiro na década de 80, compraram o Empire States, o prédio da ONU, compraram tudo.
Carlos Azevedo - Mas já venderam também.
Aloysio Biondi - Pois é. É apenas um ciclo. Os ” tigres asiáticos” estouraram antes e já se equilibraram. Como? Aumentando as exportações para os Estados Unidos em 30, 40 por cento depois que desvalorizaram a moeda. E agora os Estados Unidos têm um déficit mensal de 20 bilhões de dólares na balança comercial. É ciclo.
Carlos Azevedo – E o Brasil? Vai sair?
Aloysio Biondi – Somos realmente a bola da vez desde maio. Já quebramos. Com esses juros malucos, você vai gastar quase 90 bilhões de juros por ano! Que corte você vai fazer? Acho até bendita a crise, porque você vai mexer com as importações, logicamente vai criar emprego de novo e até ressucitar empresas. Não precisa daquele nível de investimento para criar emprego porque as máquinas estão aí, paradas.
João Noro - Como vai ser esse reajuste fiscal?
Aloysio Biondi - O Fernando Henrique falou hoje que preferia não aumentar os impostos, que preferia alargar a base. É um pais tão incrível, que você tinha imposto realmente progressivo, 30, 35, 40 por cento de imposto de renda, eles reduziram para duas alíquotas, 10 e 27,5 por cento. E a imprensa, que antigamente - antigamente que eu digo é há cinco anos - gritaria contra isso, não falou nada. E a classe média não tem a menor noção de que, de repente, o mais rico, o milionário, não paga mais do que ela. A Folha chegou a publicar matéria mostrando as alíquotas máximas em outros países, mas é como sempre, discretamente, lá dentro, no caderno de economia. Antigamente sairia: “Aumento de imposto do Brasil não tem paralelo no mundo”. Nada disso é editado para as pessoas verem.
José Arbex Jr - Como exportar sem maxidesvalorizar?
Aloysio Biondi - Duvido que você escape de uma máxi. Porque esse socorro internacional que deve sair, porque realmente interessa muito aos banqueiro, vai demorar algumas semanas, e a situação é crítica, com a fuga de dólares, a rolagem da dívida…
Desnacionalização deliberada
Sérgio de Souza - O que você acha que não vai ser privatizado?
Aloysio Biondi - Eles querem “doar” até a Fepasa, os caras querem vender 5.000 quilômetros de ferrovia, 3.000 vagões, seiscentas locomotivas, por míseros 230 milhões de reais. Com um detalhe, 20 por cento à vista e 80 por cento…
João Noro - A perder de vista…
Aloysio Bionti -… em 28 anos.
Sérgio de Souza - Essa pergunta estava ligada a outra: o que sobraria no Brasil em termos de participação do Estado na economia e se é real que nos países ricos essa participação chega a 20 por cento ou 30 por cento?
Aloysio Biondi - Tem um cara para o qual tiro o chapéu, que é o Paulo Nogueira Batista Júnior. Porque o pessoal senta no computador, escreve a favor ou contra a globalização, mas não tem um dado no texto. Um texto econômico e não tem um dado. E o Batista Jr. sempre vem com dados incríveis, mostrando que a participação do Estado nessas economias todas só cresceu ao longo dos últimos anos. Com dados estatísticos, mostrando o relatório da OCDE, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico.
Marco Frenette - No caso da Petrobrás, você acha que o monopólio está cumprindo o seu papel, ou tem de acabar mesmo?
Aloysio Biondi - Acho que as estatais, como as empresas privadas, tinham distorções. É lógico que você deveria ter corrigido as distorções, e não feito o que se fez, sem nem discutir. Por exemplo, telefonia nos Estados Unidos não pode ter mais de 20 por cento de capital estrangeiro. Aqui, você começa dizendo que vai ser 49 por cento e acaba liberando total. No caso da Petrobrás, em primeiro lugar, você tem de lembrar que multinacional não afina seu interesse com o interesse do pais. Vê o Proálcool - bom ou ruim, ele surgiu das pesquisas do próprio governo aqui em São José dos Campos, porque, apesar da “crise do petróleo”, as multinacionais não tinham o mínimo interesse. Então, há setores em que você tem de ver se realmente os interesses estratégicos do país coincidem com o interesse de uma multinacional, se tem de ficar na mão dela. Porque essa história que os neoliberais criaram, de que hoje o que interessa é a tecnologia, que recurso natural é bobagem, que a história de que o Brasil tem potencial já era - tudo isso é mentira. Tudo isso é conversa, vai servir, sim, porque o petróleo nunca foi importante porque movimenta carro. Nos países do hemisfério norte, por um azar geológico - vocês entrevistaram o Bautista Vidal, não é? -, economia é movida a petróleo, não por causa do casso, mas porque eles não têm rio para gerar energia elétrica. Geram energia elétrica sem usinas movidas a petróleo ou carvão. Existe uma briga secular pelo petróleo porque é a fonte de energia que movimenta a economia. Voltando à Petrobrás, dizem que ela não nos deu auto-suficiência. Bem, ela tinha 8 bilhões de conta-petróleo, um dinheiro que o governo não passou para ela. O programa de investimentos dela é aprovado pela equipe econômica. Cortaram sistematicamente. Ainda, no ano passado, era para ser 3 bi, eles cortaram para 2, enquanto a dona Telebrás, dizia-se que estava investindo 8 bi e investiu 13,5 bi. Agora, me diga: que política econômica é essa? Que investe em celular que não produz divisa? Então, a Petrobrás cumpriu o papel dela, sim, e, em termos de tecnologia e transmissão de tecnologia para as empresas fornecedoras, ela sempre foi ultra-interligada. E acho, sim, que há setores que têm de ter controle do Estado.
Carlos Azevedo - Vi uma entrevista do Thomas Skidmore, na Globo News, e ele dizia assim: “O Brasil precisa aprender que o brasileiro não precisa comer maionese francesa, pode comer maionese brasileira”. O que ele queria dizer com isso?
Ricardo Vespucci - Posso emendar uma pergunta ai? Vejo sempre a tecnocracia desqualificando o mercado interno em favor do mercado globalizado. Da mesma forma, a reforma agrária, porque estamos há cem anos do minifúndio e não entramos no agribusiness, ou seja, estão fazendo uma coisa que deviam ter feito há cem anos. Para você, como é um mercado interno forte?
Aloysio Biondi - A agricultura foi destruída por isso mesmo, por essa visão de que o governo não precisava comprar mais as colheitas, que o produtor pode negociar na bolsa e se defender na bolsa. É uma coisa de quem está morando em Nova York.
Ricardo Vespucci - Acho incrivel, porque isso não deixa saída nenhuma.
Aloysio Biondi – A Gazeta Mercantil deu na sexta-feira passada, no pé da última página, que a União Européia, com medo da superproducão mundial de alimentos este ano, tocou imposto de 25 por cento em cima dos grãos, para barrar importações e proteger seus agricultores. É ridículo o Fernando Henrique fazer um discurso dizendo que os países ricos subsidiam a sua agricultura com 160 bilhões de dólares por ano. Ele foi na OMC, a Organização Mundial do Comércio, e fez esse discurso pedindo o fim das barreiras. Então, ele tem essa informação, e depois diz que o produtor brasileiro não pode ter subsidio, não pode ter preço mínimo, tem de ser livre mercado, quando se sabe que não é assim lá fora. O mercado interno é por ai. E acho que não existe mistério: criar renda é criar produção. Quando alguém compra um pãozinho por 10 centavos, uma salsicha por 18 centavos e vende por 50 centavos, criou renda e criou capacidade de consumo. Quer dizer, isso multiplicado por todas as áreas… O que é PIB? PIB é 0 valor acrescido.
João Noro - Nessa política que obviamente todo mundo já estava prevendo o que ia acontecer - a alienação do ativo brasileiro. a alienação de toda a economia -, quem leva vantagem nisso? Essa equipe econômica?
Aloysio Biondi – Sim, essa ocupação política foi implantada. Exatamente como diz a mestra Maria da Conceição Tavares, os Estados Unidos forçaram a abertura dos outros mercados para compensar o déficit com o Japão, que não conseguiam compensar nunca. Agora, o empresariado nacional, se a gente relembrar a euforia inicial de globalização, da entrada de dólares, achou que ia ter um banquete. E não percebeu que era o prato principal do banquete. (risos) Eu queria explicitar, aqui, nada me provocou mais indignação do que a quebra da Metal Leve. Por quê? Porque o Mindlin foi sempre o empresário que mais se preocupou com tecnologia no Brasil. Tanto que em 1968 fiz uma matéria sobre a enxurrada de importações e citava um exemplo tirado do noticiário: a FAB importou pistão para motor de avião dos Estados Unidos e, quando os caras abriram a caixa, estava lá que era fabricado pela Metal Leve. (risos) Porque ela exportava para a NASA. A Romi, por exemplo, naquela época, em 1968, fazia as máquinas de controle numérico, as precursoras do computador, e fazia tomos para exportar para os Estados Unidos. Isso desmente a imagem de que não temos tecnologia, que o empresário é acomodado etc. Então, para criar renda, criar um mercado mterno, você tem uma política de criar emprego, como a da Franca. Na época da ditadura, a esquerda - esquerda? -, esses caras que estão no governo, debatiam isso o tempo todo. O Bacha, no livro Encargos Sociais e Mão-de-Obra no Brasil, em 1972, propunha que a previdência fosse cobrada como nos outros países, sobre o faturamento e não sobre a folha de salário. Porque, para pagar menos à previdência, a empresa automatizava. No governo Geisel, que fez coisas sérias, o BNDES criou uma linha de financiamento para a indústria de base porque importávamos máquinas maciçamente, apoiando a Villares, Romi, Bardella etc. Mas tinha mais duas linhas, inclusive um dado que foi muito usado para dizer que o governo tinha até fábrica de sutiã, nessa onda da lavagem cerebral. Por que o governo tinha até fábrica de sutiã? Por uma política econômica sábia. Porque o BNDES apoiou os setores de base, onde era importante a tecnologia, mas apoiou também os setores que usavam muita mão-de-obra, como o setor têxtil.
Sérgio de Souza - A política desse governo está afetando também os centros de pesquisa, as universidades?
Aloysio Biondi - Há um mês, li na Gazeta Mercantil, lá no pé de página, o seguinte: “Instituto Agronômico de Campinas fecha centro de documentação e centro de treinamento de pessoal”. Motivo: falta de pessoal por falta de verbas, baixos salários… Nesta campanha, não vi um candidato falando na situação da pesquisa. E este pais tem momentos tão nojentos, que, nessa história toda sobre o déficit a dona revista Veja publicou uma matéria com um titulo que era “As vacas do Itamar”. O objetivo era desmoralizar o Itamar, que era uma época de contenção e o Itamar liberou verba para a Embrapa. A Embrapa estava sem dinheiro até para pagar conta de luz, perdeu pesquisas porque tinha embriões em geladeira, que apodreceram, aquelas coisas. Aliás, se um dia eu for escrever alguma coisa, queria escrever o caso Itamar. Porque houve um golpe branco contra ele. Começaram a dizer que, já que ele foi eleito junto com o Collor, ele também tinha se beneficiado do esquema PC e também devia sofrer impeachment. Aí, ele se enquadrou direitinho. E a imprensa sempre apresentou o Itamar como um paspalhão.
Carlos Azevedo - Ele foi um senador muito bom, inclusive.
Aloysio Biondi - Foi líder estudantil, foi presidente da Comissão de Energia Nuclear.
Sérgio de Souza - Mas arrasaram com a imagem dele.
Aloysio Biondi - Você estava numa recessão, ele procurou reativar a economia e houve mil editoriais chamando o Itamar de irresponsável, que ele era um dinossauro, que ia levar 0 país de volta à inflação, porque ele era um alvo muito fácil. Ninguém fala que ele tirou a economia do fundo do poço. E hoje estamos pior do que nunca.
João Noro - Você acha que o euro vai ameaçar a dinastia do dólar?
Aloysio Biondi – Se o De Gaulle ressucitar, pode ser. (risos) Foi o único que quis. Não, acho que vai haver uma mudança. Os Estados Unidos já começaram a ter dados negativos por causa desse crescimento das importações? O americano se endividou pra burro. A taxa de poupança dos Estados Unidos nunca esteve tão baixa, um endividamento altíssimo para o consumidor. E realmente as quedas em Wall Street representam um empobrecimento para quem pensava que tinha tanto que receber. E as empresas de lá começam a apresentar balanços negativos. Então, acho que a bola da vez, na verdade, são os Estados Unidos. Vai terminar um ciclo em que eles se aproveitaram de todos os outros países.
A desvalorização inevitável
João Noro - E que medidas você acha que o governo brasileiro vai tomar para sair da atual sinuca de bico?
Aloysio Biondi - Continuo achando que não vai dar para segurar.
Marina Amaral - Tem de desvalorizar o real, é isso?
Aloysio Biondi - Acho que não dá para segurar até depois da eleição, não. Até o tom das análises com relação ao Brasil mudou completamente nos últimos dez dias. Você teve ainda aquela história que o Clinton ia ajudar, mas apareceu o secretário de Estado, o banqueiro, todo mundo falando que o Brasil tem de fazer um ajuste firme, que não vai ter ajuda antes. Gente, esse dado de 105 bilhões de reais que o governo tinha de pagar de junho a outubro não dá para segurar. Ter de rolar 105 bilhões em quatro meses. O mercado já rejeitou, é porque os jornais não dão direito, mas já está a caminho.
João Noro - Vai ter de dar calote, não é?
Aloysio Biondi - Bom, esta entrevista vai sair depois da eleição, não é? Ou eles dão o calote lá fora, o que acho altamente problemático, ou fazem um tipo de confisco aqui dentro. Como eles vão rolar?
Marina Amaral - Quer dizer que esse ajuste fiscal é um confisco aqui dentro?
Aloysio Biondi - Veja bem, a máxi pode ajudar pelo seguinte: por que o investidor sai quando há ameaça de uma máxi? Porque todo mundo pensa que ele ganha na máxi. Não, não ganha, porque trouxe 100 dólares e trocou por reais, digamos assim. Quando quer mandar para fora de novo, vai no Banco Central e troca de novo. Digamos que não houve desvalorização nenhuma: ele recebe os mesmos 100 dólares. Se houver a máxi de 20 por cento, ele recebe 80 dólares. Então teve prejuízo. É isso, não existe ataque especulativo, é que ele não pode correr o risco de um prejuízo desses, só isso. É matemática. Por isso é que todo mundo se mandou. Não adianta o Fernando Henrique falar que não vai fazer. Pelo quadro, não dá para não ter uma máxi. É também grotesco fazer um apelo para ajudarem o Brasil porque “o Brasil é importante”. Que é isso?
Carlos Azevedo - Globalizacão solidária. (risos)
Aloysio Biondi - Pois é, quem ajudou os asiáticos? Primeiro deixaram os asiáticos quebrar. Inclusive tem declarações de banqueiro dizendo que o governo do Brasil “há muito tempo devia ter feito o ajuste, não fez, por que nós vamos ajudar agora?” Então, veja bem, se você fizer uma máxi, ai mais tarde esse pessoal que saiu pode até voltar, só que já em julho estava tendo férias coletivas da indústria automobilística! Então, vem a história: mas o PIB vai crescer! Como o PIB vai crescer se a indústria eletroeletrônica está vendendo 30 por cento a menos? Se a indústria automobilística está vendendo 60.000 carros a menos que em outubro do ano passado? É o contrário. E, como eles calculam tudo em relação ao PIB, esse déficit, que já está em 8 por cento do PIB, está levando em conta que o PIB vai chegar a 900 bi - não, não vai chegar, ele vai cair. Então, por uma coisa meramente estatistica, aritmética, o rombo vai aumentar. Não vai aumentar nenhum tostão, mas vai aumentar percentualmente
Marina Amaral - Mas você acha que o grande trunfo, o real, vai ser desvalorizado antes da eleição?
Aloysio Biondi - Acho que não segura, inclusive essas grandes reuniões nos Estados Unidos, mandaram o Pedro Parente para lá etc., você acaba até tendo pena, é a credulidade, acabam tendo um otimismo doentio, é esquizofrenia. O Tanzi, diretor do FMI, chega em julho e fala que o Brasil esta quebrado, que tem de fazer o ajuste e ainda, quem sabe, só depois da eleição. O que mostra que o FMI, o Camdessus, tem uma imensa simpatia pelo Brasil, mas não tem dinheiro. Em segundo lugar, banqueiro é banqueiro. Em qualquer recuperação você passa primeiro pelo purgatório. Vai descer ao purgatório e ao inferno. Foi assim com os tigres asiáticos, que estão crescendo agora.
Sérgio de Souza - E recessão declarada, com certeza?
Aloysio Biondi - Aí, faltou uma coisa que eu quero dizer, que é o seguinte: vivi 1974. Foi uma fase de euforia mundial, uma época de a classe operária ir ao paraíso, aquela fase de consumismo desenfreado, e todo mundo projetou investimento, a petroquímica, a siderurgia etc., com base na demanda. Mas com base num ritmo de demanda que era temporário. Em 1974, tivemos um rombo na balança comercial, além do choque do petróleo. Eu estava na Gazeta Mercantil, o que me alertou foi um anúncio no Estadão, em Negócios e Oportunidades, um anúncio grande: “Indústria vende chapas de aço”. Mandei o repórter ver o que era. Era a Volkswagen. Como a demanda estava baixa, as multinacionais desovaram os estoques de matéria-prima nas suas filiais. E de repente o mundo descobriu que não ia ter aquele consumo da capacidade instalada. E isso está acontecendo com a euforia do neoliberalismo, da globalizaçãoão. A revista The Economist publicou, quase um ano e meio atrás, uma capa mostrando essa loucura da corrida das multinacionais instalando fábricas automobilísticas no mundo inteiro. Você fala assim: “Mas o que o neoliberalismo tem a ver com isso?” Teve a euforia. É o seguinte: como a indústria automobilística no Brasil foi montada? O governo estabelecia metas de produção, de acordo com a sua balança comercial - quanto vai gastar aquele setor que importar em peças, componentes. Dizia: no primeiro ano vai usar 5 por cento de peça nacional, no segundo 10 por cento, no terceiro 30 por cento, vai ter que ter produção local. Era um planejamento coincidente com a capacidade de gerar divisas no pais. Não era esse negócio porra louca. Ai, o tal do neoliberalismo diz que planejamento é intervenção do Estado, e que estraga tudo, porque o consumidor ganharia mais se todas as empresas tivessem liberdade de operar… É um mercado totalmente superdimensionado. Com essa história de você não planejar o tamanho de cada setor, as multinacionais não querendo ficar atrás umas da outras, correram todas para investir em todos os países.
Marco Frenette - E o que fazer?
Aloysio Biondi - Como se fez no passado: “esse setor aqui só pode ser deste tamanho”. Então, para os primeiros projetos, ou para os piores projetos, uma espécie de licitação mesmo – para estes eu dou isenção de imposto para importar peças, para botar máquina. Quem vier fora disso vai pagar. Quem tiver de fazer o investimento pagando imposto não vai poder concorrer com o outro.
Marco Frenette - E não existe planejamento porque são lobbies?
Aloysio Biondi - Não existe planejamento porque o neoliberalismo prega que o Estado não deve intervir porque prejudica o consumidor. Ele diz que é melhor que todas venham, briguem. Isso é o que antigamente os economistas chamariam de irracionalidade na alocação de recursos na sociedade. Porque tudo isso vai ser perdido. Acho que a gente vai passar por um terremoto muito grande. Às vezes acho que esse pessoal do governo aprendeu um pouco, depois acho que não. Você vê 0 Mendonça de Barros encarregado do comércio exterior, em pleno mês de setembro, dizendo que vamos faturar mais com exportações de soja e café, quer dizer, ignorando que os preços estão em queda. Você está na mão de delirantes. Como falar em reação da economia? Eletroeletrônicos, que foram aquela loucura, mas acabaram caindo 35 por cento no ano passado, este ano estão caindo mais 20 por cento. A indústria automobilística produzia 200.000, está com 140.000. Tudo isso tem efeito multiplicador, derruba a cadeia de multiplicação inteira: é o aço, a borracha, o plástico…
Sérgio de Souza - Faltou dizer algo, Biondi?
Aloysio Biondi - Não, só enfatizar que acredito que seja um ciclo que está terminando, que o problema agora será dos Estados Unidos, e nós, infelizmente, vamos passar pelo purgatório que outros países iá passaram. Espero que essa virada tenha ensinado alguma coisa para as pessoas, e que talvez os meios de comunicação percebam que eles ajudaram a afundar o país. Tenho os jornais guardados. Tem até o Fernando Henrique dizendo, em outubro de 1995: “Quando alguém me fala de recessão, eu tenho vontade de dar uma gargalhada”. (risos)