23 de ago de 2010

O vício do crédito fácil está por trás das crises - Paulo Guedes - Revista Época - 25/9/2008

Achei este artigo e achei interessante. É da época do estouro da bolha lá nos USA.

O vício do crédito fácil está por trás das crises - Paulo Guedes - Revista Época - 25/9/2008

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI13481-15230,00-O+VICIO+DO+CREDITO+FACIL+ESTA+POR+TRAS+DAS+CRISES.html

Se uma família se endivida excessivamente para comprar uma casa e depois não consegue pagar as prestações, pode ter cometido um erro – e corre o risco de perder seu lar. É uma tragédia familiar. Mas como explicar que milhões de famílias americanas tenham resolvido se endividar excessivamente ao mesmo tempo, disputando casas a preços crescentes, provocando um boom no setor de construção residencial e cometendo o mesmo erro de cálculo quando enfrentam, hoje, dificuldades no pagamento das prestações?

Elas decidem então vender os imóveis, novamente todos ao mesmo tempo, e quebram pelo desabamento de preços, pois o valor das casas fica abaixo das dívidas assumidas. É mais do que uma coleção de tragédias familiares – é uma crise sistêmica.

Se um banco ou uma agência de crédito imobiliário concede financiamento a uma daquelas famílias, que não estava preparada para arcar com as despesas financeiras da compra do imóvel, pode ter adquirido uma hipoteca de alto risco. Pode ter cometido um erro e ser atingido pela inadimplência do tomador do empréstimo, perdendo o principal, além de não receber os juros contratados. É um erro de avaliação do banco. Mas como explicar que centenas de bancos e companhias de financiamento imobiliário tenham resolvido, ao mesmo tempo, emprestar excessivamente aos milhões de tomadores de alto risco, todos com lastro em ativos imobiliários? É mais do que uma coleção de erros de avaliação – é uma crise sistêmica.

A originação das hipotecas, a revenda desses empréstimos (ou “securitização”) e sua distribuição por meio de veículos de investimento especialmente desenhados para essa finalidade seriam, em condições normais, um sinal de que as inovações financeiras contribuem para a melhoria da qualidade de vida das famílias. Mas como explicar que o veículo para a concretização do sonho da casa própria tenha se tornado não apenas o maior pesadelo dessas famílias, mas também uma crise sistêmica, um buraco negro que já engoliu gigantes financeiros – como Bear Stearns, Fannie Mae, Freddie Mac, Merrill Lynch, Lehman Brothers e AIG – e ameaça tragar o restante da economia americana?

É um fenômeno tão inebriante quanto letal.
A “droga” que leva a ele é dada pelo banco central
Pois bem, o Federal Reserve de Alan Greenspan, mantendo os juros muito baixos por muito tempo, foi a alavanca que moveu toda essa engrenagem. Milhões de famílias saltaram da bolha das Bolsas para a bolha dos imóveis. Centenas de instituições financeiras distribuíram aqueles ativos financeiros de baixa qualidade em todo o mundo. O mesmo Federal Reserve, com a ajuda do Tesouro e de seu plano de salvamento de US$ 1 trilhão, tenta agora interromper a liquidação desordenada desses ativos financeiros, cujos preços foram inflados pelas bolhas.

Por trás de todas as crises financeiras sistêmicas sempre esteve um fenômeno tão inebriante quanto letal: a expansão excessiva do crédito, que, quando interrompida, converte-se em colapso do crédito (credit crunch). É como um vício, dificílimo de interromper: as famílias desejam as casas, a indústria da construção quer construí-las, os bancos e financiadores pretendem financiá-las, as agências de rating almejam suas comissões – e as “drogas” são fornecidas pelo banco central, sob a forma de juro baixo e liquidez excessiva.

As maiores catástrofes financeiras da História moderna experimentaram o fenômeno da expansão excessiva do crédito: o crash de 1929 e a Grande Depressão dos anos 30, nos Estados Unidos, o crash de 1989 e a estagnação que completa duas décadas no Japão e o atual credit crunch de novo nos EUA. Nos três casos, foi patente o desleixo das autoridades monetárias em esvaziar as bolhas especulativas em formação.

Os bancos centrais sempre estiveram atentos à trajetória da inflação, inimigo público facilmente identificável pelo efeito corrosivo da alta de preços de bens e serviços sobre o salário. Mais difícil é detectar nos próprios bancos centrais o inimigo invisível responsável pela “exuberância irracional” dos mercados. E, mais ainda, interromper a farra do crédito, antes que ela produza a catástrofe histórica.

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