15 de ago de 2010

Paulo Rabello de Castro A próxima rodada da ciranda do crédito

A próxima rodada da ciranda do crédito

segunda-feira, 2 de agosto de 2010
ÉPOCA
31/07/2010
Paulo Rabello de Castro
é doutor em economia e palestrante,conselheiro de empresas, autor de livros
como A grande bolha de Wall Street. Mantém o Blog da Bolha (blogdabolha.com.br) e
escreve quinzenalmente em ÉPOCA
A segunda maior satisfação do ser humano
é a obtenção de crédito (a primeira é o
amor realizado, mas este artigo é sobre
crédito mesmo). O dinheiro à disposição
abre as portas dos desejos e alarga as asas
dos sonhos antes impossíveis de realizar.
Crédito é poder. Daí a dificuldade de lidar
com ele no dia a dia. Os desejos estão lá,
numa solicitação permanente ao
consumidor, bastando casar o impulso de
compra à oferta de crédito na praça. E haja
oferta.
O Brasil já viveu uma vida sem crédito. A
grande inflação dos anos 80 e 90 eliminou
quase por completo o instrumento do
crédito pessoal, e mesmo o empresarial. Só
tomava dinheiro emprestado, no setor
privado, quem estivesse a ponto de
quebrar. Com o advento do Plano Real e a
possibilidade de planejar o futuro com mais
estabilidade e menos inflação, o sistema
financeiro começou a viabilizar operações
de empréstimo ao consumidor. Mesmo
assim, persistiam taxas escandalosas,
embutidas em prestações que podiam se
estender, no máximo, a 18 meses de prazo.
Ainda estava longe de ser o céu para quem
queria dinheiro a fim de realizar desejos de
consumo.
Com o governo Lula, muito em função da
melhoria do crédito internacional que o
Brasil passou a desfrutar, o consumidor
sentiu o doce poder de escolher, comprar e
levar para casa seu objeto de sonho quando
não a casa, ela inteira. A publicidade
aproveitou para fazer sua parte. Os
comerciais de produtos, da barra de
chocolate se derretendo, do frango
crocante, do automóvel esportivo com a
tábua de surfe em cima e a garota linda
dentro, com as crianças sorridentes e as
famílias realizadas, tudo conduz a
imaginação para o mundo do prazer
alcançável, logo ali na frente, com uma
simples ficha de crédito preenchida e
aprovada. Depois, um abraço é só curtir e ir
pagando em suaves prestações que podem
chegar a sete anos, para um automóvel, ou
até 30, portanto quase o resto de sua vida,
se for o tão sonhado teto. Aliás, o nome
encontrado para o programa popular do
governo é rigorosamente correto nesse
particular: Minha casa, minha vida.
O brasileiro acabou de empatar em dívidas
os próximos dez anos de ganhos salariais
Andamos mapeando a virada do crédito a
partir de 2003, pois foi a partir desse ano
que, primeiro vagarosamente e em seguida
embalado pelo lançamento do consignado,
o consumidor partiu para as compras. De lá
para cá, a massa salarial brasileira também
vem se expandindo quase sem interrupção,
outro quase milagre da política de
estabilidade econômica. O tomador de
crédito faz contas diante de seu objeto do
desejo e calcula se pode enfrentar
prestações futuras. O vendedor procura
facilitar tudo, suavizando ou eliminando a
parcela à vista e deixando as prestações
mais pesadas para as calendas. Resultado: o
brasileiro se financia mais e mais. O
processo está bonito. Começou muito
timidamente: em 2003, o brasileiro
comprometeu em dívida nova só 130% do
aumento salarial que teve naquele ano, de R
$ 7,8 bilhões. Ou seja, tomou crédito novo
em ritmo apenas um pouco acima do que
ganhou a mais. Era valor muito modesto, se
comparado ao potencial do mercado
nacional de consumo e habitação.
Desde então, o consumidor tomou gosto de
verdade pelo uso do crédito. Entre 2009 e
este ano, o brasileiro agora se anima a
comprometer 250%, ou 3,5 vezes seu
aumento salarial anual, que chega a uma
faixa de R$ 40 bilhões. Hoje, ele se endivida
a um ritmo de cerca de R$ 140 bilhões por
ano, velocidade alucinante para quem só
comprava à vista, poucos anos atrás. É
outra vida, muito mais gostosa e perigosa.
Fizemos uma estimativa do que o brasileiro
tem acumulado no crediário da praça. Desde
2003, a ciranda do crédito deixou no
pendura cerca de R$ 400 bilhões. Compare
agora os R$ 40 bilhões de ganho salarial
atuais (esquecendo juros) com esses R$ 400
bilhões de dívida pessoal. Conclua, então,
que o brasileiro acabou de empatar os
próximos dez anos de ganhos salariais com
o saldamento de seus compromissos
financeiros. Até 2020, estaremos correndo
atrás da próxima prestação. E daí, não foi
bom para você?

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